quinta, 14 de novembro de 2019
Cultura
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Um mito nordestino: Há 80 anos, Lampião e Maria Bonita eram mortos

André Luiz Maia / 28 de julho de 2018
Foto: Divulgação
Lampião e Maria Bonita são, no mínimo, personagens controversos. Os cangaceiros até hoje dividem opiniões, mas, independente de serem vilões ou anti-heróis, o fato é que esta cultura, personificada na figura dos dois, permanece presente em nossa cultura, mesmo após exatos 80 anos de suas mortes.

As referências ao cangaço e à dupla são latentes em nossa cultura e no imaginário popular dos nordestinos. As roupas características do bando, com chapéus em formato de meia-lua, o gibão de couro e os tons amadeirados são usados na iconografia nordestina e são usados como referência em editoriais de moda e na concepção de figurinos de histórias ambientadas no Nordeste contadas na TV ou no cinema.

Temos também diversos filmes, livros e quadrinhos que fazem referência a este movimento (confira no quadro abaixo). O pesquisador, professor e poeta pernambucano Carlos Newton Júnior foi responsável por publicar O Cangaço na Poesia Brasileira – Uma Antologia, que reúne a produção poética sobre esse movimento.

“Eu fiquei curioso em ver como o cangaço acabou penetrando na literatura erudita. Se a gente for entrar no campo da poesia popular, o livro não teria fim, mas até mesmo nos escritores ditos ‘clássicos’ houve uma reverberação”, explica. Um dos poemas, inclusive, é dedicado a Maria Bonita, escrito pela poeta baiana Myriam Fraga.

Carlos lembra também que o cinema teve um papel fundamental para a solidificação de uma mítica ao redor de Lampião, da Maria Bonita e do cangaço, explicada no livro O Cangaço no Cinema Brasileiro, de Marcelo Didimo.

“Depois do sucesso do faroeste, as produtoras brasileiras tentavam fazer uma adaptação para o contexto brasileiro, inserindo os cangaceiros como os pistoleiros e caubóis dos filmes gringos. Houve bastante deturpação em termos de precisão histórica, mas isso ajudou a sedimentar as figuras no imaginário popular”, explica o pesquisador pernambucano. Até mesmo a pornochanchada chegou a flertar com o tema, inserindo mulheres cangaceiras em seus fetiches.

Com maior fidelidade, Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, foi um marco do cangaço na cultura nacional, usando imagens reais do bando captadas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão em 1936 e 1937, e tendo o paraibano Luiz Carlos Vasconcelos como o intérprete de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

“Eu tinha 41 anos quando o fiz no cinema, a idade que Lampião tinha quando morreu. Foi uma experiência incrível enquanto ator, daquelas que fica para sempre. Tive que buscar em mim mesmo a crueldade, essas faces que Lampião tem”, declara o ator.

Este ano, a jornalista Adriana Negreiros apresenta a biografia Maria Bonita – Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, desmistificando informações acerca de Maria Bonita, outro material que pode ajudar a apresentar um cenário mais fidedigno da figura histórica.

Permanência. Há uma série de razões que explicam a presença do cangaço na memória cultural brasileira, perpassando pelo conceito de banditismo social defendido pelo historiador Eric Hobsbawm. “Lampião e o cangaço, de um modo geral, foram uma reação a um estado de coisas político e econômico que não se modificou até hoje. É uma reação ao latifúndio, à concentração de poder políticos a algumas famílias e dinastias, aos currais eleitorais, à justiça como instrumento dos ricos para perseguir os pobres. Era contra isso que os cangaceiros se levantavam”, explica o escritor e pesquisador Braulio Tavares.

O paraibano lembra uma interpretação interessante a respeito do cangaço, feita pelo historiador pernambucano Frederico Pernambucano de Mello, autor de Guerreiros do Sol – Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil. Além da revolta social, o cangaço elevava seus participantes a um status social que não seria alcançado por cidadãos comuns.

Este sentimento, na opinião de Tavares, permanece. "Eu já escrevi muitos artigos falando que no Sertão descrito por Glauber Rocha sempre contava com a presença dos beatos e dos cangaceiros. Hoje em dia, temos as seitas evangélicas e os traficantes de drogas cumprindo os mesmos papéis", analisa.

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