segunda, 18 de janeiro de 2021

Cultura
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Toninho Vaz lança biografia de Zé Rodrix, expoente do ‘rock rural’

Kubitschek Pinheiro / 03 de abril de 2018
A sacada de escrever a biografia de Zé Rodrix veio de uma conversa que o autor Toninho Vaz teve com Guarabyra. O integrante do trio Sá, Rodrix e Guarabyra) afirmara ser Rodrix “o maior mentiroso de todos os tempos”. Aí o jornalista paranaense correu atrás e lança O Fabuloso Zé Rodrix em coedição pela Editora Olhares e Caravela Filmes.

“Estávamos tomando uma cerveja em um bar de Foz do Iguaçu”, confirma o autor. “Zé mentia por compulsão, mas nunca para prejudicar ninguém. É porque a realidade para ele nunca era o bastante”.

O autor explica até o "x" no final do nome artístico de Zé: era uma mistura de Jimi Hendrix com Asterix. o personagem de quadrinhos criado pelos franceses Albert Uderzo e René Goscinny.

Zé Rodrix participou com a banda Momento4, aos 19 anos, acompanhando Edu Lobo na vitória de “Ponteio”, no Festival da Record de 1967, mas o começo foi bem antes.

“Aos treze anos com as primeiras aulas de música com o pai, Hermano, que tocava clarinete, instrumentos de sopro, em alguma banda regional. Ele frequentou depois o Conservatório e a Escola Nacional onde se aprofundou nos estudos, passando por arranjos e regências”, releva Vaz.

Tem a história de quando ele foi um dos protagonistas da MPB, que flertando com o rock progressivo, que ainda hoje é som em expansão. “A banda Som Imaginário, montada para acompanhar Milton Nascimento, uma estrela que nascia em 1970, foi a reunião feliz e oportuna de um punhado de músicos de raro talento”, conta o autor. “Era excepcional, eles não gostavam de ensaiar, era puro improviso. Todos, exatamente todos os seis, tornaram-se grandes nomes da MPB: Zé Rodrix, Tavito, Wagner Tiso, Fredera, Robertinho Silva e Luis Alves. O que estava pegando no início dos 1970 era o rock progressivo”.

Depois Zé abandonou o Som Imaginário. Existiam dois tecladistas, ele e o Wagner. “Foi algo meio natural. Também com alguma naturalidade que surgiu o trio. Ele ensaiava com o Sá que morava em Ipanema com o Guarabyra. Fizeram história”, registra.

Segundo Toninho Vaz, Rodrix tinha verdadeira adoração pela cantora Elis Regina, que gravou dele “Casa no campo” e fez um sucesso estrondoso, colocando o nome do compositor lá em cima. “Era ele que dizia: ‘Foi ela que colocou a mim e o Tavito no primeiro time de compositores da MPB. A gravação visceral que ela fez da música mudou o meu estilo e o rumo da nossa carreira’”, lembra Toninho Vaz.

No livro de Vaz vamos encontrar vários Zé Rodrix. E o autor logo justifica. “Não fui eu o primeiro a chamá-lo de ‘multi artista, multi talento’. Era uma constatação óbvia para um sujeito que tocava todos os instrumentos, de corda, sopro e teclado. Era maestro e arranjador. No meio da vida tornou-se um escritor de méritos inquestionáveis, criando a Trilogia do Templo, algo em torno de 2 mil páginas para contar, em narrativa equilibrada entre realidade e ficção, a história da maçonaria. Do ponto de vista histórico, existem 33 graus na maçonaria, o Zé Rodrix chegou ao grau 22, perto de se tornar um Grão Mestre. Como publicitário, era super criativo e ganhou importantes prêmios internacionais para a agencia dele e de Tico Terpins, A Voz do Brasil etc”.

Rodrix teve dois casamentos. Primeiro Lizzie Bravo, com quem teve uma filha, Marya Brava, que é cantora. A segunda mulher, Julia, foi um dos pilares da vida do artista. “Foi com a Julia o último e mais longo casamento do Zé, que durou mais de 20 anos. Tiveram dois filhos, Tunico e Bárbara, que também é cantora”, conta o autor.

O adeus a Elis. Rodrix morreu várias vezes. Está no livro de Vaz. A primeira foi quando Elis Regina morreu em 1982. A cantora que imortalizou a principal canção de Zé Rodrix (“Casa no campo”, composta com Tavito) deixou um vazio no peito do amigo, que considerava as pressões da indústria musical responsáveis pela morte.

“Ele decidiu não mais trabalhar com música, por acreditar que Elis foi vítima da pressão do mercado, obrigada a gravar um disco por ano. Elis se sentia pressionada e partiu para algo inédito na vida: drogas e álcool. Foi assim que Zé Rodrix dispensou o empresário, rompeu contratos já assinados para apresentações e se despediu das gravadoras. Foi fazer jingles de publicidade, pois não podia deixar de fazer música. Agenda na mão de empresário, entretanto, nunca mais. Por um período que durou 22 anos”, explica.

A segunda morte está no capitulo “Tico Terpins”. Vaz conta: “Na publicidade, seu grande parceiro era Tico Terpins, também guitarrista, que nos anos 1970 tinha criado o grupo punk Joelho de Porco. Tico tinha um estúdio de gravação e logo eles firmaram uma parceria bem sucedida no rico mercado de jingles”. A dupla compôs o grande jingle da Chevrolet de 1988 (“Meu coração/ Bate mais forte dentro de um Chevrolet”).

“Tico era um bom administrado e ganharam muito dinheiro. A morte súbita de Tico, que era oito anos mais novo, veio interromper um mar de rosas onde eles navegavam no trabalho e nos shows do Joelho. Mais um período profundo de depressão, que só foi se encerrar em 2001, quando o Rock in Rio resolveu homenagear o rock rural com uma noite especial”.

Rodrix, Sá e Guarabyra voltaram a se reunir em torno de uma agenda de shows e gravações de CD e DVD. A última e definitiva morte de Zé Rodrix aconteceu em 22 de maio de 2009 aos 61 anos. Um gigante identificado com um gênero muito próprio de sua carreira: o rock rural.

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