quarta, 24 de fevereiro de 2021

Teatro
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Paulo Betti apresenta peça ‘Autobiografia Autorizada’

André Luiz Maia / 20 de julho de 2017
Foto: Divulgação
Em meio à polêmica das biografias não-autorizadas, Paulo Betti decidiu nomear o monólogo sobre sua vida com o título de Autobiografia Autorizada, em 2015. Dois anos depois, ele chega a João Pessoa em dois dias para apresentar sua trajetória, encenada por si mesmo. As sessões desta sexta (21) e sábado (22) acontecem às 19h e fazem parte do projeto Vivo EnCena. A peça celebra os 40 anos de carreira do ator. No entanto, ela não surgiu com este intuito. "Honestamente, eu não planejei essa peça para comemorar aniversário de carreira nem nada.

Eu ia fazer um monólogo escrito por um amigo meu, um conterrâneo de Sorocaba, sobre a morte. Comecei a ensaiar esse texto, mas percebi que isso não tinha muito a ver comigo, eu queria fazer algo meu", conta o ator, em entrevista ao CORREIO. E então surge Autobiografia Autorizada, do qual Betti assina a direção junto com Rafael Ponzi. O espetáculo rendeu uma indicação ao Prêmio Shell de Teatro de 2015 como melhor texto.

Sozinho em cena, ele costura histórias de diversas fases da vida e resgata memórias sobre seus pais e avós, além de acontecimentos de sua vida desde a infância em Sorocaba, São Paulo, até a ida ao Rio de Janeiro e o início de sua carreira profissional enquanto ator. Primeiro, Betti escreveu o que vinha à cabeça. Depois ele recorreu às milhares de páginas, recortes de jornal e anotações diversas que faz desde a época da infância. "Escrevo minhas memórias em uma espécie de diário, um cadernão. Na infância eu anotava tudo. Conversas de meus pais, histórias de terror que minha avó contava, tudo aquilo que eu achava interessante ou angustiante", explica.

Décimo quinto filho de sua família, Paulo comenta por meio de sua própria trajetória a cultura do interior brasileiro e revela aspectos curiosos e inusitados, como o fato de seu avô, um imigrante italiano, ter trabalhado em uma fazenda que tinha um negro como proprietário. O processo de escrita do espetáculo foi relativamente rápido, já que ele começara a escrevê-la em 2014, no início de sua participação na novela Império. "Mas pensando bem, eu venho escrevendo essa peça sem saber que isso viria se tornar algo há muito tempo", completa. Inevitavelmente, ao trazer à tona todos esses acontecimentos e personagens que fi zeram e fazem parte de sua vida, Paulo começa a pensar sobre o agora, sobre suas motivações. "A peça tem um tom existencial o tempo inteiro. Abrir uma caixa de fotografias da época da infância é chocante! O tempo todo eu penso no ponto da trajetória em que eu estou. Eu estou com 64 anos. Antes, eu estava acostumar a ouvir que eu tinha a vida toda pela frente. Não tenho mais isso. É algo que a peça que me coloca todo o dia para pensar sobre", explica o ator.

Sentimentos contraditórios

Betti conta uma história curiosa a respeito da montagem da peça. Uma vez, visitando o cartunista Chico Caruso, foi chamado pelo anfi trião da casa para contar uma história de sua infância para ninguém mais, ninguém menos que Luis Fernando Veríssimo, um dos cronistas e contistas mais renomados do país. "Se Chico Caruso acha que a minha história é boa o suficiente para contar ao Veríssimo, às favas com a modéstia (risos)! Esses dias fui apresentar a peça em Porto Alegre e ele veio comentar que justamente a história que eu tinha contado não estava na peça", conta o ator. Em João Pessoa, Paulo Betti dedica o espetáculo ao escritor, ator e artista plástico W. J. Solha, também natural de Sorocaba. Ele, tio de sua ex-esposa e colega de trabalho Eliane Giardini, foi uma das primeiras pessoas a ler o roteiro de Autobiografia Autorizada.

Como dito no início deste texto, o nome da peça faz referência à polêmica das biografias não-autorizadas. Perguntado sobre a questão, Paulo afirma que tem pensamentos contraditórios, algo natural diante da complexidade da questão. "De antemão, eu digo que sou totalmente favorável a que todo mundo escreva sobre tudo. Acho que isso é essencial para a democracia. Mas entendo o incômodo que muitos artistas sentiram. Eu mesmo não gostaria de ver alguém escrevendo sobre a minha história. Por isso me adiantei e escrevi eu mesmo a biografia (risos)", brinca o ator.

Paralelo ao espetáculo, Paulo está dirigindo um novo longa-metragem, A Fera na Selva, baseada no livro de Henry James. "Estou elaborando um projeto. Quem quiser participar pode ler o livro original, depois o roteiro do filme, que mando por e-mail e, por fim, quando o filme for lançado, assisti-lo no cinema. Estarei recolhendo e-mails no saguão do teatro antes da peça começar. Eu quero que as pessoas participem desse processo de adaptação e entendam isso com profundidade", justifica.

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