domingo, 25 de outubro de 2020

Teatro
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Lázaro Ramos e Taís Araújo falam ao CORREIO sobre ‘O Topo da Montanha’

André Luiz Maia / 13 de maio de 2017
Foto: Divulgação
No crepúsculo de sua vida, é inevitável fazer um balanço geral de suas atitudes, até mesmo uma figura fundamental para a causa do movimento negro, como é o caso de Martin Luther King. Recriando com pinceladas de fantasia o último dia de vida do reverendo norte-americano, o espetáculo O Topo da Montanha discute racismo, violência, brutalidade e esperança com sensibilidade e emotividade de maneira equilibrada. À frente disso, dois nomes fortes da dramaturgia nacional: Lázaro Ramos, que também dirige a peça, e Taís Araújo, também na produção executiva.

Adaptado do texto da norte-americana Katori Hall, a versão brasileira quase não sai. Foi preciso uma tradução muito especial para que a obra convencesse o casal. "Quando o Lázaro foi entrevistar o então ministro Joaquim Barbosa, seu chefe de gabinete, Silvio Albuquerque, o entregou uma tradução que ele mesmo fez e pediu que víssemos a peça. Eu li, enlouqueci, disse que Lázaro tinha que ler de qualquer maneira", relembra Taís Araújo.

Na história, Luther King acabara de realizar seu último sermão e, em um quarto de hotel em Memphis, conhece a camareira Camae. Debochada, desbocada, provocativa e bastante perspicaz, ela questiona King, que faz uma reavaliação de toda a sua vida.

"Quando li o texto, eu ria e chorava o tempo inteiro e a sensação que eu tenho é que a plateia passa por essa montanha-russa de emoções quando vê a montagem", pontua Taís.

Embora fale de questões muito específicas de um movimento, a universalidade do texto é, na visão de Lázaro Ramos, seu maior trunfo.

"Antes de tudo, esse texto fala sobre um homem que está diante da morte e que começa a rever tudo o que fez em vida. Isso já é um ponto de aproximação, que todo mundo entende. Com o espetáculo, eu aprendi que isso independe de faixa etária", analisa.

Questões infelizmente atuais

Se através das falas de King e Camae temos acesso a um retrato bem específico de como a comunidade negra era tratada na década de 1960 por lá, ao assistir à peça, é impossível, infelizmente, não fazer conexões com o que acontece em 2017 não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil e no mundo.

A contemporaneidade das questões abordadas em O Topo da Montanha é algo que Lázaro enxerga como latente. "Vários dos textos ditos parecem ter sido escritos sobre agora, um momento de polarizações, de muita brutalidade sendo expressa, nas ruas, nas redes sociais, nas maneiras de conviver. O texto fala de uma maneira que motiva as pessoas a terem mais coragem, ser afetuoso, lutar contra o preconceito. Quando acaba o espetáculo, o importante é as pessoas saírem interessadas sobre o assunto. Nosso esforço foi fazer uma montagem que ajudasse a fortalecer o que o texto queria dizer", pontua.

O termômetro da montagem é a plateia. Até levar o espetáculo aos palcos pela primeira vez, tanto ele quanto Taís não sabiam se era possível investir no humor para tratar do assunto dentro da peça.

"Por mais que a Camae seja debochada do jeito que é, é plenamente possível fazer uma montagem sem humor ali. Mas eu noto que a vida é um pouco assim. Mesmo nas maiores tragédias, a gente encontra outras dinâmicas. Acho que essa nossa leitura foi positiva porque as pessoas se entregam, ficam muito à vontade, se entregam tanto ao sorriso quanto às lágrimas", comenta o ator.

Ao resgatar a humanidade do mito Martin Luther King, O Topo da Montanha apresenta a possibilidade de nos comovermos com o outro e olhar para dentro de si.

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