quarta, 14 de novembro de 2018
Teatro
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Grupo carioca Circo no Ato apresenta, em Campina Grande, a peça ‘A salto alto’

André Luiz Maia / 23 de outubro de 2018
Foto: Divulgação
O sentimento de não-pertencimento, ainda que em lugares que até pouco tempo lhe eram aconchegantes, é algo que praticamente todo mundo já deve ter sentido. Diante das tensões cotidianas e de transformações súbitas, isso se torna cada vez mais comum. É com base nesses sentimentos que surge A Salto Alto – Entre Gentilezas e Extermínios, espetáculo circense do grupo carioca Circo no Ato.

Em performance realizada nesta terça-feira (23) em Campina Grande, dentro do Palco Giratório do Sesc, a ideia do grupo é fazer questionamentos sobre a dinâmica social vigente ao retratar sete personagens que encontram o luxo e a riqueza no meio do caminho, aos poucos ficando embevecidos com aquela atmosfera envolvente. "Há uma crítica forte ao consumo, à selfie, ao ambiente da academia, dos corpos perfeitos", salienta o artista circense Rafael Garrido, ao CORREIO.

O espetáculo praticamente não traz falas, nem exatamente uma narrativa fechada, utilizando as acrobacias do circo para montar cenas que, entrelaçadas, apresentam um painel. "A gente quer que o público preencha esses espaços narrativos e reflita sobre sua própria realidade com base no que a gente tá propondo em cena", completa Rafael. Como elementos que auxiliam esta construção, eles optam por "profanar" a clássica história da Cinderela, como uma representação da vaidade presente na sociedade de consumo.

O processo de concepção foi longo, resultado de 11 meses de reuniões, ensaios e pesquisas. A Salto Alto passou por diferentes etapas, divididas basicamente em três residências. A primeira delas foi um período de três meses na Central del Circ em Barcelona, onde a companhia teve um importante processo de qualificação tanto técnico quanto artístico a partir do encontro com renomados artistas do cenário do circo europeu.

Depois, já no Brasil, tiveram mais dois meses de vivência no Circo Crescer e Viver e, por fim, na Escola Nacional de Circo. A direção do espetáculo inicialmente seria coletiva do grupo, mas no fim das contas acabou sendo assinada pelo diretor italiano Roberto Magro, com a colaboração de direção do bailarino e performer Gustavo Ciríaco.

"Nesses 11 meses, estivemos com o diretor por pouco tempo. Somando tudo, deu mais ou menos dois meses. Acabou que Roberto assinou a direção conosco porque o olhar dele de fora nos ajudou bastante a desenhar o roteiro do espetáculo", ressalta Garrido. Outros profissionais que colaboraram com essa construção foram a bailarina e preparadora corporal Maíra Maneschy, o dramaturgo Diogo Liberano e a cantora e percussionista Raquel Coutinho, que assina a direção musical.

Transformações

O espetáculo conta em cena com os artistas Carol Costa, Cássia Cristina, Luís Fernando Martins, Mário Martins, Natássia Vello, Rafael Garrido e Rodrigo Ceribelli em cena. Após a residência em Barcelona, o grupo voltou para sua cidade-base, o Rio de Janeiro, e um sentimento de estranhamento acabou perpassando a todos os integrantes.

"Era um momento bem caótico da cidade. Às vésperas do impeachment, começaram a fazer uma mudança nas linhas de ônibus daqui. A gente não sabia mais andar direito pelo Rio. Não nos sentíamos mais em casa, com aquele sentimento de não estar pertencendo àquele lugar", relembra. Essas sensações todas acabaram se infiltrando no processo de criação.

A companhia

O Circo No Ato é um coletivo de artistas criado durante o curso de formação da Escola de Circo Social do Crescer e Viver a partir do processo de criação do espetáculo Um Dia de João. Durante a montagem, o coletivo de 12 artistas percebeu uma série de afinidades.

Ao longo dos últimos três anos, o grupo vem promovendo atividades relacionadas à criação e circulação de espetáculos de circo, através de ações relacionadas à descentralização do acesso à cultura no estado e na cidade do Rio de Janeiro.

Os integrantes da companhia trazem ainda uma bagagem cultural anterior com formação em áreas como teatro, dança, direção teatral, jornalismo e economia, contribuindo para uma identidade artística plural e múltipla.

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