segunda, 16 de julho de 2018
Teatro
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Espetáculo gaúcho ‘Valdorf’ chega a João Pessoa nesta quarta-feira

Audaci Júnior / 28 de março de 2018
Foto: Divulgação
Um garoto de seis anos preso em um vidro de pepino. Esse é o começo de Valdorf, espetáculo ambientado no imaginário infantil, mas voltado para o público adulto. Realizado pela atriz Aline Marques, do grupo porto-alegrense de teatro Casa de Madeira, a peça será apresentada nesta quarta-feira (28), a partir das 20h, na Tamarindeira Processos, no bairro de Miramar, em João Pessoa.

“Valdorf se trata de um espetáculo baseado na linguagem da bufonaria, técnica que desenvolvo desde 2005”, revela a atriz gaúcha, que acumula também a direção e dramaturgia da obra.

No monólogo, a história se passa em uma escola já vazia ao final da tarde, quando todos já foram embora, menos Valdorf – pois a mãe sempre demora a buscá-lo. A montagem trata da complexa relação entre adultos sobrecarregados, e, por vezes, negligentes, além de crianças desamparadas e excêntricas, mas ainda expressivas e espontâneas.

“Na apresentação solo, abordo princípios da técnica, apresentando um menino excêntrico, com dificuldades de se integrar às normas estabelecidas na sociedade”, explica Marques. “Valdorf sofre as dores de ser sempre a última criança buscada pela mãe na escola e sente na pele a exclusão que sofre por parte dos seus colegas. A peça trata das relações, às vezes negligentes, entre nós adultos e nossas crianças na nossa sociedade contemporânea e mostra com graça e delicadeza o ponto de vista de um menino como Valdorf”.

De acordo com a atriz, existe uma desenvoltura um tanto grotesca no monólogo que faz provocar o público. A caracterização de Valdorf, por exemplo, parte de uma deformação facial, vocal e corporal da atriz, resultando em uma figura grotesca e cômica. “O grotesco e a comicidade presentes na bufonaria e em Valdorf expressam-se através de sua aparência, na maneira de sua fala e na forma avessa com que se relaciona com o seu mundo e com a plateia”, aponta. “Valdorf, assim como nossas crianças reais, nos lembra de nosso lado humano grotesco, com sua espontaneidade e ingenuidade, tomando atitudes, fazendo perguntas, expressando vontades que depois de crescidos, a sociedade não nos permite mais realizar”, critica.

Além disso, Aline Marques frisa que o monólogo aponta o grotesco presente na forma como em muitas vezes está presente na educação das crianças: por meio da ausência, recompensas materiais e com uma dolorosa incompreensão da realidade e das consequências que ela chega a gerar.

A apresentação conta também com a interação do protagonista com o público. “Por se tratar de um espetáculo cômico e pertencente a uma vertente da palhaçaria, conta-se com a interação direta com a plateia, que se diverte do início ao fim do espetáculo, mas que também encontra espaço para alguns momentos de comoção”, comenta a atriz gaúcha.

Assovios

O protagonista trava batalhas na caixa de areia e faz poções mágicas com o xampu durante o banho. Diversos desses ambientes e universos são representados na produção através de objetos cênicos e da iluminação.

“Como na imaginação de uma criança e em suas brincadeiras, tudo pode ser ressignificado, cada objeto pode ser reinventado”, conta Aline Marques. “A apresentação se utiliza dessa lógica para compor seu próprio cenário, que na verdade apenas conta com poucos objetos cênicos que são amplamente aproveitados pelo menino Valdorf”.

A trilha sonora é original assinada pelo músico Roger Wiest e contribui para instauração dos climas propostos pelo monólogo. Além das composições originais, a trilha também é interpretada – em alguns trechos – pelo assobiador Juarez Sita Marques, pai da atriz, que embala a história de Valdorf, assim como embalou a infância da própria Aline.

“Valdorf carrega muitas manias, charminhos e medos da minha infância. Ao mesmo tempo, estão impressos no menino sentimentos imaturos que me acompanham na vida adulta. Valdorf é a dilatação do grotesco e do ridículo que há em mim, e a partir disso, proponho uma reflexão acerca da infância contemporânea e também das crianças que nós, adultos, ainda somos”, afirma a atriz e diretora gaúcha.

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