sexta, 22 de janeiro de 2021

Teatro
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Ditadura para crianças: Tema é tratado em peça infantojuvenil

André Luiz Maia / 15 de abril de 2017
Foto: Rafael Telles
A tendência natural de pais e mães é proteger seus filhos de todas as maneiras, desde a mais óbvia, dos perigos iminentes que a vida cotidiana os apresenta, até àquelas mais subjetivas, como histórias, filmes, séries e relatos de violência. Neste contexto, é possível falar de um tema tão pesado quanto as ditaduras militares que dominaram a América Latina? Para o grupo potiguar Clowns de Shakespeare, sim. O resultado disso pode ser conferido em Abrazo, apresentado hoje, em João Pessoa, e na próxima terça, em Campina Grande, dentro da programação do Palco Giratório.

Em Abrazo, eles abordam temas cruéis de forma lúdica, mas também preocupados em dar a pequenos e adultos a dimensão da gravidade do que aconteceu naquela época. O espetáculo faz parte da chamada Trilogia Latinoamericana, composta também pelos espetáculos Nuestra Señora de las Nubes e Dois Amores e Um Bicho. "Essa ideia surgiu por um desejo de falar sobre a ditadura, política e assuntos cruéis, na época dos 50 anos do Golpe Militar no Brasil. Queríamos trabalhar com textos de escritores latinoamericanos, buscando fazer um trabalho sobre as ditaduras que dominaram os países do continente nesta época", explica Dudu Galvão, um dos atores de Abrazo. A peça é baseada em O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano.

A história é ambientada em um país fictício, no qual não é permitido abraços ou demonstrações de afeto. “A gente faz uma alusão às mães da Plaza de Mayo, na Argentina, que estão em busca de seus filhos, maridos e parentes. A história se centra na figura de uma criança fugindo da perseguição do sistema e de sua avó, que o procura por todos os cantos. No meio dessa história, a gente encontra um casal que se apaixona, mas que é proibido de viver esse amor por um general que representa esse sistema cruel e opressor”, explica o ator. Os personagens atravessam um quadrado contando histórias de encontros, despedidas, opressão, exílio e até mesmo de liberdade.

O maior desafio do espetáculo foi transpor essa história sem o uso das palavras, apenas através de gestos e três telas verticais, que reproduzem animações. Para isso, o dramaturgo do grupo César Ferrario, fez uma espécie de roteiro, que orienta os atores através do argumento central da história e os auxilia na criação do gestual e das expressões faciais.

A direção fica por conta de Marco França, que também criou uma trilha sonora especialmente para a peça, um elemento de destaque. As músicas e os efeitos sonoros ditam o ritmo da narrativa. Em cena, além de Dudu Galvão, também estão as atrizes Camille Carvalho e Paula Queiroz.

É a segunda vez que o Clowns de Shakespeare participa do projeto, a primeira vez em 2006, quando apresentaram os espetáculos Roda Chico e Muito Barulho por Quase Nada. Um dos espetáculos da Trilogia Latinoamericana, Nuestra Señora de las Nubes, também será apresentado este ano no Palco, mas em única apresentação, em Florianópolis. "O Palco é um respiro da cultura em um momento bastante delicado do nosso país, pois leva nosso teatro a cidades distantes. Não é só a capital, vamos até aos interiores também", lembra.

Criado em 1993 em Natal, Rio Grande do Norte, o Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare vem, desde então, desenvolvendo uma investigação com foco na construção da presença cênica do ator, a musicalidade da cena e do corpo, teatro popular e comédia, sempre sob uma perspectiva colaborativa. Diferente do que muitos possam pensar, a companhia não é circense e não se trata exatamente de palhaços em cena, embora a técnica e a estética do clown seja usada na construção de suas obras.

No seu currículo, o grupo traz importantes conquistas que conferem uma posição de referência na cena potiguar e nordestina, passando por cerca de 80 de cidades brasileiras, dentre elas, 24 capitais e o Distrito Federal, e ainda percorrendo mais de 30 cidades do interior do Rio Grande do Norte.

Além disso, atravessou as fronteiras do país, levando seus espetáculos para Portugal, Espanha, Chile, Equador, Uruguai. Premiado pelos seus espetáculos (Shell, APCA, dentre outros), o grupo já se apresentou em diversos festivais importantes do país, inclusive os do circuito internacional (Festival de Teatro de Curitiba, de São José do Rio Preto, Londrina, Brasília e Belo Horizonte), bem como realizou temporadas em teatros de notável importância histórica, como o Sesc Anchieta, o Sesc Pompéia e o Sesi Vila Leopoldina (SP) e o Teatro Alterosa (BH).

Serviço: 

Hoje, às 20h.

Centro Cultural Piollín (R. Sizenando Costa, s/nº, Roger, João Pessoa – tel.: 8709.0708/ 8749.6883 – http://www.piollin.org.br).

Entrada franca

Terça, às 9h e às 15h.

Teatro do Sesc (R. Giló Guedes, 650, Santo Antonio, Campina Grande – tel.: 3341.5800 – culturasesccg@gmail.com).

Entrada franca

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