quinta, 24 de janeiro de 2019
Teatro
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Anayde Beiriz é a homenageada do Agosto das Letras

André Luiz Maia / 02 de agosto de 2018
Foto: Reprodução
O redescobrimento de Anayde Beiriz tem sido pauta de diversos produtos culturais paraibanos. A mulher que revolucionou costumes e esteve no centro da história da década de 1930 na Paraíba é a homenageada da edição 2018 do Agosto das Letras, que começa nesta quinta-feira (2).

Outra novidade deste ano é a descentralização do evento. “A gente está interiorizando as ações, para levar este evento literário para o maior número de pessoas. Este ano, estamos indo para Cuité, Cajazeiras, Sapé e Belém”, explica a coordenadora do Agosto das Letras, Taty Cavalcante.

Nestas cidades, serão promovidos debates, saraus e lançamentos de livros de escritores paraibanos, dentre outras atividades.

Em João Pessoa, a abertura do evento contará com a leitura encenada de Anayde, um texto de Paulo Vieira. Em um tempo em que o feminismo está cada vez mais em alta nas rodas de discussões da sociedade contemporânea, Suzy Lopes, uma das diretoras da nova montagem, acredita que relembrar Anayde é essencial. “Usando uma metáfora bíblica, ela foi colocada como Eva, que morde a maçã e estraga todo o Paraíso. Foi muito ultrajada e injustiçada”, opina.

“Estamos vendo essa movimentação da valorização da figura da mulher, por isso a organização escolheu Anayde para mostrar um pouco do papel feminino na história da Paraíba”, explica Taty Cavalcante.

Para quem não conhece Anayde Beiriz, ela nasceu em 1905 na capital do estado (quando ainda se chamava Parahyba). Já adulta, ela causou furor na sociedade paraibana ao apresentar um comportamento vanguardista para a época, ainda mais para uma mulher.

Roupas, maquiagens, cabelos curtos e a independência de ir e vir sem a autorização ou companhia masculina acabaram gerando comentários por parte da ala mais conservadora da cidade.

Seu envolvimento com o advogado e político João Dantas a colocou no centro das atenções quando este matou o então presidente (como se chamava na época o governador) da Paraíba, João Pessoa.

À frente do seu tempo

A história de Anayde foi contada em diversos livros, quadrinhos e filmes. Um destes exemplos é Parahyba, Mulher Macho, da cineasta Tizuka Yamakazi. No entanto, ao escrever o texto para Anayde, Paulo Vieira quis seguir um caminho diferente, ao ficcionalizar acontecimentos com base na história real da figura histórica, criando assim um comentário social sobre a sociedade paraibana do passado e do presente.

Um dos exemplos de ficcionalidade do texto, explica Suzy, é a mescla de eventos históricos de tempos distintos em uma mesma linha temporal. “Ele pega um evento de 1922, sobre um guarda que matou um rapaz que cruzou uma linha determinada para separar homens e mulheres em uma praça, e o transporta para 1930”, cita.

Suzy Lopes divide a direção desta leitura encenada com Roberto Cartaxo. O elenco é composto por Bárbara Azevedo, Leandro Nobre Fialho, Raissa Gama, Ivo Araújo, Brenna Monteiro, Talitta Leonilia e Fernanda Peres Maranho. A preparação vocal foi feita por Priscilla Cler e a iluminação é de Eloy Pessoa.

O texto, montado originalmente em 1992 com direção de Fernando Teixeira, foi alvo de estudo por Suzy durante seu mestrado em Artes Cênicas. O foco se dá, principalmente, na transgressão social promovida pela artista e por sua liberdade em amar quem quiser. “A ousadia de uma mulher de 1930”, completa Suzy Lopes.

Originalmente com 1h30, a leitura de hoje dura 40 minutos. “Quando veio o convite para montar uma peça sobre Anayde para a abertura do Agosto das Letras, sugeri fazer essa montagem ficcional, ao invés de adaptar algum livro mais histórico, e a sugestão foi prontamente acatada, o que me deixou muito feliz”, conta a atriz e diretora paraibana.

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