sábado, 21 de setembro de 2019
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Titane mostra sua identificação com obra do artista baiano Elomar em show

André Luiz Maia / 12 de abril de 2019
Foto: Divulgação
Elomar é respeitado por sua música única, reflexo do ambiente em que vive, o sertão baiano. Os artistas que já mergulharam em sua obra são inúmeros, contudo, pela primeira vez, uma cantora apresenta um espetáculo inteiramente dedicado à sua obra. A mineira Titane chega nesta sexta-feira (12) a João Pessoa para apresentar seu show Titane Canta Elomar – Na Estrada das Areias de Ouro, baseado no disco homônimo.

Nascida na pequena cidade de Oliveira, em Minas Gerais, Titane vivenciou o sertão descrito nas letras das canções de Elomar, o que a aproximou do repertório do artista ao longo dos anos. “Muitas das coisas das canções do Elomar me remetem a essa época. O sertão elomariano é também um pouco o sertão mineiro. O português do Elomar é muito familiar para mim, sinto um grande conforto cantando essa linguagem”, descreve Titane, em entrevista ao CORREIO.

No entanto, essa admiração nunca tinha passado do ponto de ser uma ouvinte. A ideia de cantar suas canções surge por uma provocação de um produtor cultural em um festival que participara há alguns anos. “Acostumada a ouvir essas músicas nas vozes de homens, me causou estranhamento colocar minha voz, de mulher, nessas músicas, mas foi algo muito interessante”, afirma.

Ao lado dela, estava o músico Hudson Lacerda, que hoje toca com ela no projeto. “Ele é um profundo conhecedor do violão de Elomar. Além de ser um compositor muito bom, Elomar também é reconhecido pelo seu violão, que mistura diversas técnicas e se transforma em algo muito próprio dele. Hudson conseguiu absorver essa essência e notei que ele seria fundamental nesse projeto de homenagem a Elomar”, relembra a cantora. Por isso mesmo a ideia de fazer algo mais acústico.

Ao todo, será um roteiro de 12 canções, contemplando o disco lançado no ano passado e algumas canções extras. No palco, sobe ao lado de Titane e Hudson o músico André Siqueira (viola de 10 cordas e bouzoki). Essa configuração acústica evidencia o trabalho do violão de Hudson, mas também é fruto de vontade pessoal da artista.

“Eu já tinha feito um projeto acústico do qual gosto muito, mas nos últimos anos eu vinha trabalhando muito com grandes projetos, bandas enormes, um deles tinha até um coro com mais de 40 pessoas. Quis fazer algo menor, mais íntimo, era o meu desejo naquele momento”, explica. Com Hudson, ela já apresentava esse projeto há pelo menos sete anos, chegando inclusive a fazer uma performance ao lado do próprio Elomar. “Foi quando eu senti enorme orgulho de fazer esses shows”, completa Titane.

Com esse aval, ela decidiu registrar suas versões em estúdio. No disco, com direção musical assinada por Kristoff Silva, outro entusiasta do projeto, ela se permitiu acrescentar mais instrumentos, mas ainda respeitando a estética acústica dos palcos. “Eu tinha dúvidas sobre o que usar em algumas músicas, mas o próprio Elomar me deu dicas. Ele dizia: ‘Olha, nessa música seria legal colocar uma sanfona’ e lá ia eu colocar sanfona (risos)”, se diverte enquanto relembra o episódio.

"A gente sempre quer perceber o sertão com o filtro das grandes cidades. Elomar não faz isso, ele é bastante particular na maneira de demonstrar o quanto esse sertão é encantado sem abrir mão de mostrá-lo como um ambiente cru", falou Titane.

Herança. Titane dedicou boa parte de sua carreira a investigar ritmos afrobrasileiros. “É uma herança muito nebulosa ainda para nós, mesmo que ela esteja presente em praticamente todas as nossas manifestações culturais e, principalmente, musicais”, justifica. No entanto, ela notou que estava faltando explorar outra referência forte.

Essa percepção se deu após gravar Elomar. “Ele tem uma herança ibérica muito forte em sua música, que chega até ele filtrada pela cultura nordestina. Nas letras, ele fala de heróis, de princesas, além do seu violão ter bastante referência a essa região europeia”, analisa. Por conta dessa percepção, ela decidiu incluir na performance ao vivo um trecho de um dos livros do espanhol Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote.

Para Titane, há um paralelo entre os dois. “Cada um à sua maneira trabalha com esse universo fantástico e mágico, que se revela nas palavras de cada um de seus trabalhos”, completa a cantora.

 

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