segunda, 10 de dezembro de 2018
Cultura
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Seminário internacional debate bibliotecas comunitárias em São Paulo

Audaci Júnior / 16 de março de 2018
Foto: Divulgação
Um tema importante abordado no Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância – evento promovido pelo Itaú Social que aconteceu esta semana no Sesc Pinheiros, em São Paulo – foi com relação a formação dos leitores durante os primeiros anos.

Foram debatido temas como a formação dos profissionais, integração da família e questões específicas como a diversidade de acervos, de inclusão social para a mulher, o negro e o índio na literatura, a participação da comunidade e a crítica das leituras de "fácil compreensão" nas escolas para crianças pequenas.

“A literatura é vida, mas também é honestidade. Devemos buscar uma seleção de livros que tenha uma aproximação honesta com a infância. De maneira que, quando nos aproximamos dos livros, busquemos por espelhos para ver-nos, principalmente o reflexo que devolvam as imagens de nós mesmos e não havíamos encontrado antes”, apontou a espanhola Lara Meana, que participou do debate “Rompendo paradigmas e semeando futuros leitores”.

A livreira, especialista em literatura infantojuvenil, enfatiza a busca da opinião desses leitores para formar uma biblioteca diversificada de obras para todas as idades, representativa também pela qualidade do seu acervo.

Há duas décadas a educadora Bel Santos Mayer atua em organizações não-governamentais para facilitar processos de criação de Bibliotecas Comunitárias gerenciadas por adolescentes e jovens.

“Temos que ter a honestidade de contar para as crianças que a gente também lê e às vezes não entende”, contou a pedagoga. “Assim, a gente vai deixar de usar os livros como ‘autoajuda’ para as crianças”.

Pela sua vasta experiência, ela explica que caso as pessoas não se sentirem pertencentes à essa comunidade leitora, quem quer ajudar na formação vai estar sempre repetindo e nunca será entendido.

Com o programa Caminhos da Leitura em Parelheiros, na Zona Rural de São Paulo, Bel Santos desabafou que o acervo de uma biblioteca comunitária não é apenas aqueles livros que o doador não quer mais.

Ela relembra que os primeiros acervos de Parelheiros foram as revistas literárias, adicionadas às visitas dos autores e resenhistas, inclusive a mobilização de grupos de mães para visitar eventos literários, onde algumas não entendiam bem as propostas. Porém, quando a escritora e educadora colombiana Yolanda Reyes falou que "a voz da mãe é o primeiro livro da criança", as representantes confessaram a Bel Santos que estavam começando a entender.

Mitos

Já a formadora de educadores Patrícia Diaz passou um trecho de um vídeo de estratégia informativa no Espírito Santo, no qual educadoras leem obras com estrutura de textos e ilustrações tradicionais para crianças que mal engatinham, quebrando um paradigma sólido de que livros para essa faixa etária deve ser sensorial.

Segundo Diaz, o desafio sempre discutido é a ajuda dos professores para avançar no processo de escolha dos títulos, que engloba gostos e percursos pessoais, além das questões da diversidade e identificação com personagens ou história abordada. “Uma estratégia que temos usado e faz sentido é comparar diversas versões da mesma obra, em que uma delas tem alguns elementos do cuidado da arte da palavra. O livro mais complexo é bem mais fácil de mediar, e o livro que tenha a linguagem empobrecida e a ilustração muito óbvia não tem muito para conversar”.

A importância de se ver dentro da diversidade e inclusão foram abordados por Bel, chamando a atenção de que tais temas não precisam ser discursivos ou didáticos. “Eu quero tudo, não quero apenas o meu quintal. O mundo é diverso. Não precisamos tratar isso de forma politicamente correta. Temos que falar da vida, que é diversa e essa diversidade também tem que estar dentro de uma biblioteca”.

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