sábado, 26 de maio de 2018
Cultura
Compartilhar:

Relembre a trajetória de Zabé da Loca, que morreu no sábado

André Luiz Maia / 08 de agosto de 2017
Foto: Divulgação
Depois de Luiz Melodia, na sexta-feira, na manhã de sábado foi a vez de Zabé da Loca. A pifeira nascida em Pernambuco e que por muitos anos viveu na comunidade Santa Catarina, em Monteiro, no Cariri paraibano, faleceu aos 93 anos, enfrentando a doença de Alzheimer. Apesar disso, ela foi reconhecida ainda em vida como mestra da música popular nordestina, ganhando prêmios e homenagens. Comente no fim da matéria.

Nascida Isabel Marques da Silva, Zabé cresceu em Buíque, no Agreste de Pernambuco, e viveu a tocar o pífano, seu instrumento parceiro, desde muito nova. O apelido veio por ela ter vivido 25 anos em uma pequena gruta, também chamada de loca, com seus filhos na região próxima da cidade. Descoberta por integrantes do projeto Dom Hélder Câmara, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, ela passou a ganhar reconhecimento na região e depois em todo o Brasil, chegando a gravar um CD, aos 79 anos, chamado Canto do Semi-Árido.

Em 2016, por iniciativa da afilhada Josivane Caetano, foi fundado na cidade o Memorial Zabé da Loca, que trabalha com recursos próprios para manter vivo o legado de Zabé da Loca para futuras gerações.

‘Singela, forte, bruta, branda'

A trajetória de Zabé da Loca é um retrato triste, porém inspirador, de uma realidade muito comum ao povo do Brasil que não é visto nas manchetes. Pequena, mudou-se de Pernambuco para nosso estado em busca de melhores condições de vida com a família.

Logo, começou a trabalhar com o roçado no campo, não podendo frequentar a escola. Aos sete, aprendeu a tocar pífano com o irmão Aristides, que sumiria anos depois e ela jamais teria notícias. Dos quinze irmãos, oito não resistiram à fome e à sede.

Já crescida, sofreu com o assédio dos donos de fazenda. Devido a isso, engravidou e deu a luz a uma menina. Mais tarde, chegou a ter um companheiro, Delmiro, com o qual teve dois filhos. Após a morte dele, vieram as dificuldades financeiras e ela viu sua casa desmoronar. A solução que ela encontrou para continuar sobrevivendo foi morar em uma caverna sob duas pedras da Serra do Tungão. Enquanto cuidava da terra para ter o que comer, deixava seus filhos protegidos em buracos sob a sombra das árvores envoltos em trapos. Em 2003, pôde morar em uma casa do assentamento Santa Catarina, onde começou a ter uma qualidade de vida melhor.

Com seu pífano, ela tocava composições próprias, que decorava de cabeça, já que nunca aprendeu a ler e escrever. Parte disso foi para seu primeiro CD, que também continha registros de versões para músicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aos 85 anos, em 2009, foi eleita Revelação, no Prêmio da Música Brasileira.

Sua loca continua intocada até hoje. "Parece difícil entender para quem está de fora, já que é uma trajetória de vida sofrida, mas a loca representa para ela um refúgio, um lugar de solução. Quando você conhece, não é difícil entender porque ela, depois de rodar todo o Brasil se apresentando, afirmou que o que mais queria era voltar para a loca", conta Sandra Belê, que foi até Monteiro neste fim de semana para dar um último adeus a Zabé.

Moradora de Zabelê, município vizinho a Monteiro, Sandra tem memórias longínquas envolvendo Zabé da Loca. "Eu lembro de a ter conhecido há muito tempo mesmo. Saí de Zabelê há dez anos e desde muito antes a conhecia e conhecia seu trabalho, já perdi as contas", comenta. Na opinião da cantora, Zabé é uma fonte de inspiração diária. "Não foi apenas um encontro com a artista Zabé, foi uma descoberta de um ser tão singelo e forte, bruto e brando. É a força da mulher, da guerreira do Cariri, por ter conseguido criar seus filhos diante de tantas adversidades", completa a artista.

Depois de sua "descoberta", artistas de todas as regiões do estado e até de outras partes do Brasil iam frequentemente à sua casa para demonstrarem carinho e admiração por ela. "É um símbolo de força e simplicidade da vida. Junto dela, a gente passa a entender muita coisa. Fico muito feliz por ela ter sido reconhecida em vida, já que temos essa dificuldade de preservar a memória da nossa cultura. Ela, sem dúvidas, vivenciou momentos mágicos", comentou Sandra Belê.

O jornalista Gilson Renato a visitou em dezembro de 2014, durante os preparativos para a festa de aniversário de seus 91, comemorado em janeiro do ano seguinte. "Me emocionou muito a fragilidade combinada com a doçura e, apesar das limitações físicas, a firmeza dela, de uma mulher acostumada aos desafios da vida e a perceber entre os descaminhos o viés da alegria, as brechas para o exercício da felicidade", relata.

Leia Mais

Relacionadas