terça, 18 de junho de 2019
Cultura
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O ano que não acabou: 1968 marcou na sociedade e no mundo da arte

Renato Félix / 09 de setembro de 2018
Foto: Reprodução
O livro escrito por Zuenir Ventura consagrou o título do ano de 1968: o ano que não terminou. Ele se referia especificamente ao ato institucional nº 5 (o infame AI-5), que coroou o endurecimento da ditadura militar brasileira ao ser decretado em dezembro. 1968 deixou lembranças amargas, mas também foi um ano especial para as mudanças de costumes, de pensamento, para as quais a cultura foi elemento importante.

O cinema compareceu com um punhado de filmes importantes, dos quais o maior é indiscutivelmente 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, que estreou em abril. Ousado tanto nos efeitos especiais inovadores quanto na pretensão filosófica, imaginava tanto a aurora do homem quanto sua evolução futura para um ser estelar.

Mas houve outros filmes marcantes: em Era uma Vez no Oeste, Sergio Leone combinou o despojamento dos faroestes italianos com um tom clássico dos americanos; O Bebê de Rosemary associou o horror à maternidade, na estreia de Roman Polanski nos EUA; no Brasil, O Bandido da Luz Vermelha se tornou o ápice do cinema underground (ou, abrasileirando, udigrudi) às vésperas do AI-5.

Certos momentos culturais são impossíveis de dissociar da turbulência política da época. No mundo, a Guerra do Vietnã estava em curso. Martin Luther King e Bob Kennedy foram assassinados (em abril e junho) e o artista vanguardista Andy Warhol também sofreu um atentado (em junho, mas escapou).

A França viveu o emblemático Maio de 1968, de protestos nas ruas que sofreram violenta repressão e que, entre outras coisas, provocaram a interrupção do Festival de Cannes daquele ano. Na Tchecoslováquia, a Primavera de Praga foi sufocada pelas tropas da União Soviética, em agosto.

No Brasil, o estudante Edson Luís é morto por policiais militares na invasão de um restaurante, em março, no Rio, seguida por manifestações nos dias seguintes e repressão violenta. Uma resposta foi a Passeata dos Cem Mil, em junho.

A cultura vivia uma repressão incrível. Em julho, o elenco do espetáculo Roda Vida, de Chico Buarque, foi atacado dentro do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, por integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Após o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que já tinham comandando a gestação da Tropicália no ano anterior, foram presos no Rio. Depois acabaram partindo para autoexílio em Londres.

"Tropicália", "Alegria, alegria", "Superbacana" e "Soy loco por ti, America" estavam no disco de Caetano daquele ano, batizado com seu nome. É desse ano o primeiro álbum dos Mutantes, que leva o nome da banda e trazia "Panis et circensis" e "Baby".

1968 foi também o ano do III Festival Internacional da Canção, aquele em que Geraldo Vandré defendeu sua "Pra não dizer que não falei das flores" e ficou em segundo lugar, perdendo para a lírica "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque. A música de Vandré foi imortalizada como um hino contra a repressão.

No exterior, os Beatles lançavam um manifesto antenado a efervescência mundial no single "Revolution" e colocavam no mercado o primeiro álbum duplo do mundo: o álbum branco. O grupo vivia seu momentos finais: John, Paul, George e Ringo gravariam juntos pela última vez no ano seguinte.

Outros grandes nomes do rock tiveram momentos importantes em 1968. Elvis Presley estrelou um especial de TV que quebrou um hiato de sete anos sem apresentações no palco, tempo em que o rei do rock se dedicou à carreira no cinema. Por isso, o especial ficou conhecido como o 68 Comeback Special. E os Rolling Stones lançaram uma de suas músicas mais marcantes: "Sympathy for the devil".

Nos quadrinhos, vale lembrar a mudança importante na DC Comics, com Dick Giordano assumindo a editoria e buscando modernizar as histórias dos personagens da empresa. Nessa leva, começou a fase antológica do roteirista Dennis O'Neill e do desenhista Neal Adams à frente do Batman.

Na TV, uma estreia marcante foi a da série animada Corrida Maluca, da Hanna-Barbera. Durou apenas uma temporada, mas seu grande número de personagens carismáticos (Penélope Charmosa e Dick Vigarista entre eles) garantiu exibições sem fim e, este ano, uma nova versão nas HQs.

É só mais uma coisa entre tantas que não acabaram em 1968.

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