quinta, 27 de junho de 2019
Cultura
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O adeus a Beth Carvalho e como fica o samba sem sua madrinha

Renato Félix / 02 de maio de 2019
No samba, poucos tinham mais autoridade do que ela. Era a madrinha, dos que vinham depois e dos que vieram antes dela: era aquela que podia ajudar a revelar um talento como Zeca Pagodinho e que levava ao palco Vó Maria, apresentado-a com toda a pompa de "a viúva do Donga". Para Sérgio Cabral, era o "Túnel Rebouças", numa referência ao túnel carioca que liga as zonas Norte e Sul da cidade. Era um símbolo do bloco Cacique de Ramos e da Mangueira, tão forte a ponto de causar indignação geral quando uma péssima decis~çao da escola não a permitiu desfilar pela Estação Primeira em 2007. E tinha sempre uma firme uma posição política declarada. Esse coquetel era Beth Carvalho, uma das maiores figuras da música brasileira, que morreu terça, aos 72 anos.

Há vários anos, Beth sofria com problemas de saúde, convivendo com uma grave inflamação na patte inferior da coluna. Por alguns períodos, não pôde andar ou ficou internada em hospitais. Em setembro passado, chegou a fazer show deitada em uma cama, no Rio de Janeiro.

O samba só tem a agradecer a Beth. Ainda mais porque, entre tantos astros do gênero criados em seu meio, que o tinham no sangue, Beth Carvalho o escolheu. Ela, garota do bairro da Gamboa e criada na Zona Sul, poderia ter sido, por exemplo, bailarina clássica. "Fui primeira bailarina, balé era tudo pra mim", disse, em 2015, ao repórter do CORREIO, em entrevista para divulgar o CD e o DVD Ao Vivo no Parque Madureira.

A mudança para a música veio a bordo não do samba, ainda, mas da bossa nova. Um disco de João Gilberto a fez trocar as sapatilhas pelo violão. A música estava sempre ali, a rondando. O pai era amigo de Sílvio Caldas. Elizeth Cardoso e Aracy de Almeida frequentavam a sua casa.

Aos 15 anos, já participava de shows de bossa nova. Mas também frequentava rodas de samba e pagodes levada pela irmã mais velha. O primeiro compacto, em 1965, "Por que morrer de amor?", era uma canção de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, dupla da bossa, autores de "O barquinho", entre outras. Mas também foi nessa época que participou do show A Hora e a Vez do Samba, ao lado de, entre outros, Nelson Cavaquinho e Zé Keti.

Antes do samba, ela ainda cravou um dos sucessos que iriam acompanhar toda a sua carreira: "Andanças" (de Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi), defendida com os Golden Boys no III Festival Internacional da Canção, de 1969. Ficou em terceiro lugar. A canção até batizou seu primeiro LP, em 1971.

Mas foi nesse ano que começou a enveredar pelo samba. No ano seguinte, 26 anos, tomou coragem para pedir um samba inédito a Nelson Cavaquinho. Ganhou simplesmente "Folhas secas", que marca seu primeiro disco dedicado ao gênero: Canto para um Novo Dia (1973).

Em 1974, veio "1.800 colinas", de Gracia do Salgueiro. Em 1976, "As rosas não falam", de Cartola. Em 1977, "Saco de feijão" (de Francisco Santana) e "O mundo é um moinho" (Cartola, de novo). Em 1978, outra antológica: "Vou festejar" (Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias), sucesso que impulsionou o pagode. Em 1979, "Coisinha do pai" (Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos). Um fio de sucessos eternos que impressiona.

Beth tinha paixões além-música. O Botafogo foi uma delas. Outra foi a luta por justiça social. Foi eleitora fiel de Leonel Brizola nos anos 1980, migrando para o PT nos anos 1990.

Mas o samba foi a maior, sem fronteiras. Cantou o samba do Rio, de São Paulo, da Bahia, a Mangueira, a Portela. O samba sempre vai pedir a bênção à madrinha.

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