sábado, 16 de fevereiro de 2019
Música
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Totonho mergulha no gênero do samba com ‘Samba Luzia Gorda’

André Luiz Maia / 16 de outubro de 2018
Foto: Rafael Passos
No caldeirão fervente de Luzia Gorda cabe o mundo inteiro. O processo de cozimento do disco novo do paraibano Totonho, Samba Luzia Gorda, foi lento e cuidadoso, acrescentando elementos paulatinamente até chegar em um molho caudaloso, repleto de referências sonoras do mundo todo, mas essencialmente o Brasil. O álbum já pode ser ouvido nas principais plataformas de streaming.

Samba, hip-hop, funk carioca e até mesmo samples de música tradicional asiática se mesclam em um trabalho que só Totonho poderia fazer. Enquanto entregava ao público o EP Côco Ostentação (2015), Totonho estava pensando em como seria o disco cheio que viria a seguir. O samba já era um norte, assim como o eletrônico trabalhado em sua discografia desde o início, mas a confirmação veio depois de conversas com o produtor musical do álbum, Maurício Tagliari.

Aqui na Paraíba, o músico natural de Monteiro já havia feito uma série de shows intitulada Os Sambas que Cartola Não Quis Fazer, com repertório autoral. "Eu sempre flertei com o samba, mas nunca tive coragem de mergulhar de cabeça, pois eu morava no Rio e sei como isso é muito sério. No entanto, convivendo com os sambistas de lá, descobri que eles têm um código próprio. Não 'cantam' samba, 'dizem' samba e essa forma de ver a música ia de encontro ao que eu penso sobre o que é um álbum. Não é uma coletânea de músicas bonitinhas, é um conjunto de músicas que formam algo que eu quero dizer", relata o músico.

Decidido a usar o samba como fio condutor do trabalho, obviamente ele não se contentaria em fazer algo standard. "Eu até tinha essa preocupação, de fazer um samba mais padrão, chapado, mas eu percebi que isso era mais uma tentativa de provar algo pros outros. Descobri que eu tinha bons sambas, mas que eu precisava fazer do meu jeito, com o juízo 'buliçoso' que todo mundo sabe que eu tenho", brinca Totonho. E a viagem pela cozinha musical é bem rica, de fato.

O primeiro que chegou, como quem acabara de desembarcar de Pequim, foi André Abujamra. "Eu queria que ele me ajudasse a encontrar o caminho do disco. Um dia ele me liga e diz: 'Vamos para a China?'. Eu ri, sem entender, até ele me mandar um sample da orquestra chinesa. Fiquei enlouquecido", conta Totonho que, extasiado, aceitou a missão.

Desse encontro, surge "Vai nevar", um pagode eletrônico grooveado que passeia pelos sons de instrumentos asiáticos com uma naturalidade que assombra. Na mesma seara, vem "Unzinho oriental", que conta com Rica Amabis na programação eletrônica. O disco nada largamente pelo oceano da chamada "world music", sem deixar de perder de vista a base três ritmos musicais, o principal deles o samba.

Totonho define o resultado final do disco como "uma coligação de jacaré com cobra d'água". Ele explica. "A gente arrasta os mesmos códigos do preconceito da música brasileira para um mesmo lugar: samba, funk e hip-hop. As três, cada uma em sua época, nunca foram respeitadas como criações, foram entrando de vez. O funk estava em guetos, em sublugares precarizados e hoje se torna a expressão da música brasileira no mundo, uma música que surge dos códigos sonoros da macumba", explica.

Para deixar isso claro, ele cria uma versão mais "crua" de "Amassar a lataria", conhecida por parte do público devido a uma versão da banda paraibana Sonora Sambagroove. Na faixa, estão a dupla Mbeji e Otto, em um mash-up com "Teste de DNA".

Por falar em participações, Samba Luzia Gorda é um prato completo. Além dos já citados, entram na receita os paraenses Felipe e Manoel Cordeiro e a dupla Mbeji, acrescentando seus temperos próprios nos arranjos criados para as composições de Totonho.

O caldo engrossa com a entrada do Quinteto da Paraíba, executando as cordas no arranjo de "O samba". "O Quinteto puxa para o lado da seriedade, servindo para dizer que eu não tô aqui para fazer gracinha. Tenho respeito pelo samba", enfatiza.

Moreno Veloso, que fará apresentação ao lado do pai Caetano e de seus irmãos em João Pessoa no fim deste mês, aparece como participação vocal na faixa "Minha gatinha não". "Eu até pedi para ele dar uma força na divulgação do disco lá durante o show", brinca Totonho.

Mãe

A capa do disco, ilustrada por Shiko, traz uma mulher negra, empunhando um facão em uma mão, enquanto agarra com firmeza uma galinha, pronta para o abate. A ideia é evocar a figura imponente da matriarca nordestina, além de lembrar de sua própria mãe, única referência musical na família durante sua infância em Monteiro, no interior da Paraíba.

"As pessoas não percebem, mas a gente tem uma realidade bastante matriarcal. Mesmo com o machismo, são as mulheres das famílias do interior que dão as cartas, que decidem os rumos da família quando a situação aberta. Quis lembrar isso quando pus o título e pedi essa capa a Shiko", salienta o artista.

Viabilidade

Samba Luzia Gorda teve projeto aprovado no Fundo de Incentivo à Cultura (FIC) Augusto dos Anjos, do Governo da Paraíba, mas, como já é de conhecimento público, boa parte dos projetos deste edital de 2015 não foram concluídos. Totonho precisou do apoio da YB Music, de São Paulo, para conseguir completar as gravações do álbum.

Mesmo assim, ele ainda está promovendo um crowdfunding através da plataforma Catarse para viabilizar a edição física do disco. A "vaquinha virtual" está aberta até o dia 2 de novembro.

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