domingo, 15 de setembro de 2019
Música
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Sem ele não pode ser: morte de João Gilberto é perda incalculável

Renato Félix / 09 de julho de 2019
Um revolucionário. Um gigante. Um gênio. Tudo isso pode ser dito sem qualquer exagero sobre João Gilberto — e mais. O inventor da "batida diferente" da bossa nova e um dos tripés do movimento (junto com Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes) morreu sábado, no Rio de Janeiro, aos 88 anos. É uma perda incalculável para a cultura brasileira, mesmo que há anos ele não aparecesse em público.

João e a música tinham uma relação simbiótica. Era o "homem-música": não só era um obsessivo, que tocava e experimentava sem parar, mesmo que sozinho e de pijamas em seu apartamento (de muito, há anos, raramente saía), como isso se refletia em sua exigência que muitos tomavam por folclórica quanto à qualidade do som onde tocava e o respeito da plateia.

"João Gilberto tocava para as paredes de seu apartamento como se estivesse tocando no Municipal", confirma o escritor Ruy Castro, autor de Chega de Saudade, livro que conta a história da bossa nova e, dentro dela, de João Gilberto.

Essa simbiose o levou a criar os novos jeitos de cantar e tocar que deram na bossa nova. Numa época em que os cantores de voz forte ainda davam, as cartas, João — que no comecinho da carreira  fazia um estilo Orlando Silva — desenvolveu um estilo de cantar baixinho, que exige que as plateias, bem, ouçam a música e que libertou um número infinito de intérpretes que puderam fazer carreira sem ter um vozeirão. Por exemplo, Chico Buarque.

Depois de começar a carreira em sua Juazeiro natal, integrar o grupo Garotos da Lua e zanzar pelo Rio dos anos 1950 meio sem rumo, partiu para um autoexílio que passou por casa de parentes na mineira Diamantina e volta à casa dos pais. O violão sempre do lado, experimentando obsessivamente.

Quando voltou ao Rio, estava diferente. Em 1957, tinha mudado o jeito de cantar e trazia essa "batida diferente", que encantou muita gente e inspirou Tom Jobim a colocar nela algumas coisas em que vinha trabalhando. Uma delas: "Chega de saudade".

João toca em duas faixas de Canção do Amor Demais, disco que Elizeth Cardoso gravou em 1958, só com músicas de Tom e Vinícius. Seu próprio compacto — com "Chega de saudade" de um lado e "Bim bom", composição sua, de outro — veria a luz três meses depois.

Artistas e jornalistas como Caetano Veloso, Gal Costa, Roberto Menescal, Gilberto Gil, Nelson Motta e Arnaldo Antunes falaram sobre a importância e a influência de João. Artistas e jornalistas contaram quando foi a primeira vez que ouviram João Gilberto.

"Ouvi João Gilberto pela primeira vez cantando 'Desafinado' no rádio de minha tia na rua Barão do Flamengo, aqui no Rio", conta Ruy. "Isso foi em 1959. Eu tinha onze anos; e, hoje sei, a Bossa Nova tinha um. Donde mais ou menos crescemos juntos...".

Também se falou muito das excentricidades do cantor, como conversar longas horas ao telefone ou de histórias como a contada por Almir Chediak, a quem João pediu para afinar um violão. Chediak encontrou o instrumento na portaria, o afinou e, na porta do apartamento, ouviu de João para deixar o violão no corredor. Chediak obedeceu, mas ficou de longe, esperando para ver o cantor pegar o instrumento, mas só viu o braço pegando o violão pela porta entreaberta, como num desenho do Pernalonga.

Ou os grandes gestos amorosos. Como o contado por Jards Macalé, salvo de uma depressão quando João o chamou em sua casa, deitou-o em sua cama e tocou violão cantando "No rancho fundo" até Macalé adormecer. No outro dia, era outro homem. No Facebook, fotos e vídeos em um perfil da neta Sofia, de 4 anos, encantaram os admiradores.

Falou-se de suas encrencas jurídicas. Do processo que ganhou em segunda instância contra a Universal questionando pagamentos de royalties desde 1964 e da deturpação de seus primeiros álbuns reunidos em um CD. Em 2017, Bebel Gilberto entrou com um pedido de interdição do pai, contra o que considerava uma gestão maléfica da carreira do pai pela companheira de então, a jornalista Claudia Faissol.

E, ainda assim, haveria mais a contar. Para Ruy Castro, há pelo menos um aspecto que poderia ser mais ressaltado estes dias. " O fato de ele trazer na cabeça toda a história do samba — principalmente do samba 'de bossa' —, e só por isso foi capaz de fazer a Bossa Nova". João Gilberto foi gênio, gigante, revolucionário — e inesgotável.

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