terça, 25 de setembro de 2018
Música
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Paulo Miklos lança disco sem os Titãs, mas cercado por diversos amigos

André Luiz Maia / 30 de agosto de 2017
Foto: Bruno Trindade/ DIVULGAÇÃO
Há os que devolvem o sofrimento com lágrimas, enquanto outros acham que o sorriso é a melhor resposta. Ambas são reações legítimas, mas Paulo Miklos definitivamente escolheu o segundo caminho. O ex-titã apresenta seu primeiro disco fora dos Titãs. A Gente Mora no Agora é uma construção coletiva que reflete o estado de espírito do cantor e compositor depois de fortes perdas no âmbito pessoal.

Em um período de 18 meses, perdeu mãe, a esposa e o pai. Após uma pausa para trabalhar os muitos lutos, ele ergueu a cabeça e convocou colegas e profissionais da música para trazer um álbum-resposta às questões que o consumiam internamente.

Com tonalidade solar, as letras não se furtam de falar dos momentos de dificuldade, mas apresentam um tom positivo, de prosperidade. A produção musical ficou a cargo de Pupillo, da Nação Zumbi, e coprodução de Apollo Nove. A direção artística é assinada por Marcus Preto. A produtora executiva (e sua atual esposa) Renata Galvão completa o núcleo criativo do projeto.

Uma das diretrizes do disco é mostrar a relação de Miklos com a música brasileira. “Minha escola é o rock’n’roll, mas a minha formação sempre foi da canção popular brasileira. Procurei deixar isso bem evidente no disco e, para isso, chamei dois caras muito legais. Pupillo é um grande conhecedor dos ritmos brasileiros. Marcus Preto é um jornalista, diretor artístico de nomes como Tom Zé, Gal Costa, um cara muito legal para discutir esses caminhos comigo”, conta Paulo, em entrevista ao CORREIO.

Para quem está acostumado a ouvi-lo nos Titãs ou em seus discos solo antecessores (Paulo Miklos, de 1994, e Vou Ser Feliz e Já Volto, de 2001), a sonoridade do disco é uma surpresa. Para os que conferiram seu trabalho ao lado do Quinteto em Preto e Branco cantando Noel Rosa, nem tanto. A Gente Mora no Agora é um disco de MPB, essencialmente, reunindo várias gerações de compositores.

Erasmo Carlos e Guilherme Arantes contribuem com as canções “País elétrico” e “Estou pronto”, respectivamente. Também ex-titã, Nando Reis escreve “Vou te encontrar”, um relato cru, porém delicado, das perdas que Miklos teve, especialmente a esposa Rachel Salém, com quem foi casado por mais de 30 anos. “Ele conhecia a Rachel há muito tempo, acompanhou nossa história”, completa Paulo. Outro ex-parceiro da banda, Arnaldo Antunes contribuiu na composição do frevo “Deixar de ser alguém”, que no disco ganha arranjo de sopros do pernambucano Maestro Duda, veterano das orquestras de frevo em Recife.

Apesar dos velhos parceiros e mestres que o cantor reverencia, ele faz jus ao título do CD e trabalha com uma nova geração de músicas, alguns deles inspirados pela carreira pregressa de Miklos, outros com trajetórias muito distintas. A mágica da música, é claro, os une em um ponto de intersecção coerentes.

É o caso da canção que resume o trabalho, “A lei desse troço”, com letra do rapper Emicida. “O Emicida traçou um perfil meu nesse momento. Ele entendeu com profundidade esse momento criativo, de estar me lançando sozinho em uma carreira nova. O conceito basicamente é: a gente não deve viver na nostalgia do passado, principalmente gente como eu, que tem uma trajetória longa e bonita. Ao mesmo tempo, fala da ansiedade do futuro, de não saber no que vai dar. É preciso se concentrar no presente”, filosofa.

Das colaborações, Mallu Magalhães e Tim Bernardes são os únicos a assinarem canções completamente sozinhos no disco. Ela trouxe o samba-rock “Não posso mais”, escrita com eu-lírico masculino pensada especialmente para o artista. Tim, da banda O Terno, encerra o disco com “Eu vou” – “uma canção muito especial, que me deixou surpreso por sua beleza e por dizer muito sobre o disco e sobre o que eu estava fazendo”, pontua Miklos –, além de contribuir com “Samba bomba”, a faixa mais próxima do rock no álbum.

Céu e Pupillo escrevem com Paulo “Risco azul”, enquanto a cantora faz com o artista a canção "Princípio ativo", contribuindo também com os vocais. Silva, celebrado por suas releituras das canções de Marisa Monte, escreveu a melodia de “Todo grande amor”, originalmente uma bossa nova, transformada pelo violão de aço de Miklos e um arranjo de cordas assinado pelo americano Miguel Atwood-Ferguson, que já colaborou com artistas como Rihanna e John Legend. O baiano Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, e a rapper Lurdez da Luz trazem um toque mais urbano para suas respectivas músicas, “Vigia” e “Afeto Manifesto”.

“Desenhei esse disco a partir dos encontros com parceiros. As parcerias musicais realmente foram um capítulo à parte, porque foi um processo muito intenso, de trabalho criativo com esses parceiros, de gerações e gêneros musicais diferentes. Essa diversidade me representa como artista”, conta Paulo Miklos.

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