segunda, 14 de outubro de 2019
Música
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Nelson Gonçalves completaria 100 anos nesta sexta

André Luiz Maia / 21 de junho de 2019
Foto: Reprodução
A potente voz de Nelson Gonçalves atravessa gerações e cai no fluxo dos bits ao ter sua discografia inserida no catálogo das principais plataformas digitais a partir desta sexta-feira (21), no dia em que completaria, caso estivesse vivo, 100 anos. No total, estarão disponíveis 35 álbuns da obra do cantor.

O projeto integra o processo de digitalização do catálogo de Nelson, que inclui restauração de tapes analógicos e projetos gráficos originais dos 35 discos do cantor. A gravadora deixará disponível também playlists temáticas, com curadoria de Rodrigo Faour.

Com repertório romântico e de carga dramática acentuada, sua trajetória conturbada, mas de bastante sucesso, lhe garantiu o status de um dos maiores artistas da indústria fonográfica do país. Ao todo, Nelson Gonçalves vendeu mais de 81 milhões de cópias físicas no período entre 1941 e 1998, sendo superado apenas por Roberto Carlos (120 milhões).

Metralha, como ficou conhecido por sua gagueira antes mesmo de se tornar o ícone da canção, está recebendo uma série de homenagens e lançamentos, para além do streaming. Os Correios apresentam um selo oficial dedicado a ele, disponível em cidades que fizeram parte de sua trajetória.

São Paulo foi para onde ele se mudou ainda criança com seus pais, morando no bairro do Brás. No Rio de Janeiro, o cantor consolidou sua carreira. A lista também inclui Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, onde Nelson nasceu, em 1919.

Já na grande metrópole do país, Nelson começou a ser reconhecido por sua vocação, como lembra o músico Juracy Lucena, do Clube do Choro da Paraíba e do grupo Luar do Sertão. Juracy fez uma pesquisa sobre as origens do cantor, cujo nome real é Antônio Gonçalves Sobral. Filho de pais portugueses, mas nascido no Brasil, foi nos encontros familiares que começou a querer cantar.

“Quando ele tinha uns 10 anos, ele era convidado a cantar nos aniversários e festas. Uma cantora, impressionada com o talento dele, decidiu ensiná-lo a potencializar sua voz. Foi ali que ele começou a desenvolver sua técnica”, explica. Não à toa, a voz poderosa do cantor o alçou ao panteão dos grandes intérpretes da música nacional, no nível de outras lendas como Orlando Silva e Ângela Maria, todos considerados exemplos a serem seguidos por muito tempo, até o surgimento do canto mínimo e comedido de João Gilberto e sua bossa nova, no fim da década de 1950.

No fim da adolescência, tentou a carreira profissional como cantor em um programa de calouros apresentado por Aurélio Campos, na Rádio Tupi de São Paulo, tendo sido reprovado, mas não desistiu. Depois de conseguir finalmente ser contratado pelo programa, foi dispensado anos depois, o que o levou ao Rio de Janeiro para mais testes. Num deles, foi reprovado por Ary Barroso, que era bastante criterioso.

Enfim aprovado após diversas tentativas, foi chamado para gravar um disco de 78 rotações, que foi bem recebido pelo público. Passou a crooner do Cassino Copacabana, do Hotel Copacabana Palace, e assinou contrato com a Rádio Mayrink Veiga, iniciando uma carreira de ídolo do rádio nas décadas de 1940 e 1950, sendo discípulo de Orlando Silva e Francisco Alves.

Alguns de seus grandes sucessos dos anos foram “Maria Bethânia” (Capiba), “Normalista” (Benedito Lacerda / Davi Nasser), “Renúncia” (Roberto Martins / Mário Rossi) “Última seresta” (Adelino Moreira / Sebastião Santana) e sua canção-assinatura, “A volta do boêmio” (Adelino Moreira). Assinatura pois também retratava sua vida pessoal, cercada de polêmicas. Nos anos 1950, envolveu-se com drogas, problema que causaria a interrupção de sua carreira em 1962. Três anos mais tarde foi preso em São Paulo, sob a acusação de tráfico, da qual foi absolvido em julgamento.

Mesmo essa turbulência no meio do caminho não o afastou do meio musical. Embora não tivesse o mesmo prestígio de seus anos de ouro, Nelson era uma exceção à regra, pois, com a chegada da bossa nova, da MPB e do tropicalismo, seus companheiros passaram a mergulhar em ostracismo e seu jeito de cantar era considerado cafona.

Mesmo assim, ele permaneceu tocando nas rádios e vendendo discos, permanecendo em atividade até sua morte, em 1998.

Hoje, é dia de celebrar um jeito de fazer música de um Brasil que resiste na lembrança das pessoas, mas que se eterniza em gravações icônicas.

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