segunda, 20 de maio de 2019
Música
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Mart’nália lança disco em que canta a obra de Vinícius de Moraes

Kubitschek Pinheiro / 17 de abril de 2019
Foto: Eny Miranda/Divulgação
Caetano Veloso acertou na apresentação do novo disco de Mart’nália, de que nada poderia representar melhor o coração inflamado do carioca do que unir Vinícius de Moraes e a artista. O disco Mart’nália canta Vinicius é soma de experiências. Coube ao compositor Celso Fonseca e ao baixista Arthur Maia, (que morreu em dezembro, aos 56 anos), realizar esse novo trabalho de Mart’nália. É seu oitavo disco de carreira. “Dedico esse álbum a Arthur”, diz ela, no inicio da conversa com o CORREIO pelo telefone.

A cantora avança na carreira ao interpretar as canções do poetinha, algumas em parcerias com Toquinho, Jobim, Banden Powel, Carlos Lyra e outros. Aliás, essa não é a primeira vez que Mart’nália canta Vinícius. No CD e show Pé do Meu Samba, dirigido por Caetano, em 2002, ela gravou “Tempo feliz” (parceria com Baden Powell) e “Mulata no sapateado” (com Ary Barroso)

“Eu até pensei antes se gravaria um disco só com as canções de Noel Rosa, pois canto muito seu repertório, mas a Teresa Cristina gravou um disco lindo (Teresa Cristina Canta Noel — Batuque É um Privilégio, de 2018), aí foquei com poetinha”. Mart’nália se apresentou temporadas no Blue Note Rio em shows cantando Noel, compositor de sua Vila Isabel, e Vinicius.

O álbum traz 14 faixas e conta com a participação da cantora e compositora franco-italiana Carla Bruni, em “Insensatez”. Maria Bethânia declama o "Soneto do Corifeu". Toquinho é o convidado em "Tarde em Itapoã". Abrindo e fechando o álbum, ouve-se a voz do próprio Vinicius, em “Samba da bênção”.

Na primeira faixa é ela quem faz a saudação a Vinicius de Moraes, o chamando de branco mais preto do Brasil, título que ele próprio se dava, seguida do “Samba da bênção”. Em seguida vem um som empolgante numa batida diferente, quando ela interpreta “A tonga da mironga do kabuletê”, gravada para homenagear sua mãe, Anália Mendonça. “Ela adorava essa canção, ficava cantando em casa. Aquilo me encantava”.

Mart’nália não esconde que é apaixonada pela obra de Vinicius, que foi amigo de seu pai, o sambista Martinho da Vila. “Sempre. Desde quando era menina. Eu adorava ouvir Vinicius, vê-lo com meu pai. Agora, cantando um disco com as canções dele, me realizo”.

Outra ligação está na participação dela no documentário Vinícius (2006), dirigido por Miguel Faria Jr. Lá, ela canta "Sei lá (A vida tem sempre razão)". No filme, Vinicius tem sua vida contada com imagens de arquivo, entrevistas e interpretações de suas composições. Em 2013, Mart’nália participou do musical Arca de Noé, parceria de Vinicius com Toquinho, em "O gato". “E num CD produzido por meu pai, cantei 'Pra que chorar', do Vinicius e do Baden Powell”, lembra ela.

Como ela já cantava Vinícius e dominava bem, não deu trabalho para formatar o repertório. “Arthur sugeriu canções e Celso também, mas era isso mesmo que eu queria gravar. Antes de morrer, Arthur Maia havia me pedido para incluir 'Eu sei que vou te amar' no disco. Confesso que não estava à vontade para isso, disse a ele que não queria, pois não achava essa música a minha cara. Ele insistiu: ‘Então, grave só pra mim’. Aí, não teve jeito. Ela foi pro CD”, revela.

A faixa “Um pouco mais de consideração”, uma musica pouco gravada de Vinicius, dá vontade de ouvir muitas vezes. “Por que você é tão ruim?/ Não me diz 'não', nem me diz 'sim'./ Sofre demais meu coração/ Pois nunca sabe quando é sim ou não”, cantarola ela pelo telefone. “Essa musica é muito forte”.

A artista lembra que aprendeu a primeira canção de Vinicius ouvindo Elizeth Cardoso, e "Gente humilde" na voz de Ângela Maria. Elizeth é sempre lembrada pelo clássico disco Canção do Amor Demais (1958), com composições de Vinícius e Tom, na aurora da bossa nova, mas também gravou , em 1963, Elizeth Interpreta Vinícius, com os afro-sambas de Vinicius e Baden. Entre outras, Maria Bethânia também gravou um disco cantando o poetinha: Que Falta Você Me Faz (2005).

A participação de Maria Bethânia no CD de Mart’nália é uma performance a parte. A sambista conta: “Nos encontramos numa festa e eu disse que gostaria que ela recitasse um poema dele e Bethânia disse: o poema eu escolho. E escolheu bem". A voz da cantora baiana enche o disco com o "Soneto do Corifeu" e Mart’nália canta “Eu sei que vou te amar”.

A décima faixa, “Insensatez", ela dedica ao pai. É o dueto com Carla Bruni. “Ele cantava e assoviava essa canção, que é bem marcante em minha vida. Achei muito bom dividir com Carla Bruni. Convidei porque ela tem muito a ver com Vinicius que sempre gostou de muitas mulheres, o Vinícius de mil mulheres. Ela topou e o Celso foi lá em Paris, no La Seine Records Studios, trouxe a voz e colocamos no disco”.

Em "Tarde em Itapuan", as vozes dela e de Toquinho se casam. “Olha, Toquinho não poderia faltar nesse disco. Ele é sagrado. Foi como trazer o Vinicius junto”, disse.

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