terça, 26 de janeiro de 2021

Música
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Há dez anos morria Marinês, a rainha do xaxado

Renato Félix / 14 de maio de 2017
Foto: Divulgação
“O Brasil perdeu hoje sua rainha do forró, a primeira grande cantora nordestina que aparece nos anos 1950, inaugurando um ciclo de ouro da voz feminina na música do Nordeste”. A frase é de Gilberto Gil, então ministro da Cultura em 2007, lamentando a morte de Inês Caetano de Oliveira, imortalizada como Marinês. A Rainha do Xaxado – título conferido pelo próprio Rei do Baião – morreu há dez anos, mas vive, sobretudo, na força das artistas da música nordestina, e paraibana em particular, que continuam abrindo o caminho que ela desbravou a partir dos anos 1940.

Marinês nasceu na pequena cidade de São Vicente Férrer, agreste pernambucano e divisa com a Paraíba, em 1935. Mas sua família se mudou quando ela ainda era criança para Campina Grande. “Então os referenciais dela são todos de Campina, são paraibanos. Isso ela sempre contou”, diz o jornalista Rosualdo Rodrigues, autor (com Carlos Marcelo) do livro O Fole Roncou! – Uma História do Forró (Zahar).

Marinês começou cedo na música, aos 10 anos já participava de programas de calouros. O nome artístico surgiu para escapar da vigilância dos pais (embora eles tivessem ligações com a música: o pai era seresteiro; a mãe, cantora de igreja). Aos 14, se casou: com Abdias, sanfoneiro que a acompanharia também profissionalmente (e também como produtor) até a separação do casal, nos anos 1990.

Com Abdias, em 1949, formou o “Casal da Alegria”. No começo dos anos 1950, juntou-se a eles o zambumbeiro Cacau, surgindo o trio Patrulha de Choque do Rei do Baião. Eles chegavam antes às cidades onde Luiz Gonzaga iria tocar e faziam um show com o repertório do astro, como um “esquenta” para o show de Gonzagão.

Numa dessas, um prefeito em Sergipe apresentou os dois, que cantaram juntos e Gonzagão, pouco depois, já a trouxe para a realeza do forró.

O primeiro disco veio em 1956 e veio junto o batismo do grupo como Marinês e Sua Gente. No ano seguinte, um de seus principais sucessos: “Peba na pimenta”, de João do Vale, José Batista e Adelino Ruivera, que ela cantou no cinema na chanchada Rico Ri à Toa (1958). O filme, estrelado por Zé Trindade, está completo no YouTube e o número de Marinês e Sua Gente está em 1h08.

Assista aqui ao filme 

Marinês precisou se afirmar em um ambiente naturalmente machista: formado por homens nordestinos nos anos 1940 e 1950. “Então tinha essa postura da mulher que se impõe no gogó, que sabe que tem que fazer dobrado, e isso se refletia nas suas escolhas de repertório e no seu canto, que era poderoso, inconfundível”, conta Rodrigues. “Talvez o fato de estar casada e ser parceira artística de Abdias tenha lhe resguardado de alguma maneira. Mas na verdade ela enfrentou todos os empecilhos comuns à mulher na época. Imagine uma nordestina saída do interior, que quer ser artista, que sai pelo mundo num esquema meio circense, enfrenta a cidade grande...”.

O reconhecimento das sucessoras não faltou. Elba Ramalho produziu um CD de Marinês e Sua Gente em 1998. E Lucy Alves chegou a gravar com ela, ainda no Clã Brasil, no DVD que o grupo lançou em 2006. “Ela me abençoou ali, no momento em que botou o chapéu na minha cabeça, desejou que eu tivesse nascido sua filha...”, lembra Lucy. “Marinês é uma das grandes referências que tenho pra mim. Não só de cantora e de nordestina, mas de mulher. Uma leoa. Criou uma família através de sua arte, rodou por todos esses rincões aí mostrando fibra, muita raça, muita força”.

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