terça, 11 de dezembro de 2018
Música
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Festival evidencia a produção feminina na cena hip-hop brasileira

André Luiz Maia / 21 de agosto de 2018
Foto: Divulgação
A importância da presença das mulheres em todas as áreas é cada vez mais discutida na sociedade. Há avanços inegáveis, mas também muitos setores bastante atrasados. Para provocar essa discussão dentro do meio do hip-hop, o coletivo Campo Minado, criado pelas integrantes da Sinta a Liga Crew, criaram o Festival Campo Minado.

A ideia é reunir grupos e iniciativas femininas dentro do hip-hop, fortalecendo e incentivando a produção artística das mulheres na cena. A partir de hoje, são oferecidas diversas oficinas, todas gratuitas, com o objetivo de capacitar mulheres que atuam no movimento ou têm interesse em participar do hip-hop de alguma forma. "O festival é uma proposta de ocupação. O nome 'campo minado' vem tanto de nossa leitura de um espaço hostil, violento, quanto nossa própria concepção, de um campo dominado pelas 'minas', em todos os espaços", explica Kalyne Lima, rapper e organizadora do evento e uma das integrantes do coletivo Sinta a Liga Crew.

Dentre as atividades ofertadas, estão a oficinas de stencil, espécie de técnica aplicada em impressão e graffiti (20, 21, 27 e 28 de agosto, sempre às 8h, no CRAS Alto do Mateus). Também há oficinas de fotografia (20 e 21 de agosto, com duas turmas, uma às 8h, outra às 13h30, no CRAS Gervásio Maia), maquiagem para fotografia (20, 21, 27 e 28 de agosto, às 8h, no CRAS Gramame), rap (27, 28, 29 e 30 de agosto, às 13h30, no CRAS Bairro São José), discotecagem (22, 23, 24 e 25 de agosto, às 14h, no Centro Cultural Mangabeira) e dembow dance (25 e 26 de agosto, com duas turmas, uma às 8h, outra às 14h, no Centro Cultural Mangabeira).

Além das oficinas, também haverá um ciclo de palestras, que precederá os dias de show e atividades, discutindo uma série de pautas importantes para as mulheres do hip-hop, desde o protagonismo feminino na produção cultural às pautas de enfrentamento propostas pelas mulheres para promover uma cultura com mais igualdade de gênero. "São discussões sobre empreendedorismo e empoderamento das mulheres na cena", acrescenta Kalyne.

Ainda na programação, estão previstas a realização de mutirão de graffiti, um campeonato de break e shows de rap. O projeto tem o financiamento do Fundo Municipal de Cultura e todas as atividades oferecidas são gratuitas.

Origens e avanços

A cultura hip-hop surge essencialmente na periferia negra dos Estados Unidos, como um movimento cultural que agrega diversas influências, como os latino-americanos e jamaicanos. "A gente ouve a máxima de que o hip-hop é o movimento de juventude mais abrangente do mundo, presente em periferias do mundo todo. É um movimento cultural que integra música, dança e arte visual", elenca Kalyne Lima.

Um de seus precursores é o DJ Afrika Bambaataa, que fundou em 1973 a Zulu Nation, uma organização cujo objetivo era promover a autoafirmação do povo negro sustentada em três pilares: paz, união e diversão.

"O hip-hop surge nas ruas e desenvolve seu próprio código ético, que não era mais encontrado nas escolas. É um movimento que também foi bastante importante para levantar bandeiras como o combate à violência policial contra a população negra", complementa a rapper. objetivos de auto-afirmação que promovia o combate através das quatro vertentes do hip-hop e que invocava “Paz, União e Diversão”. Esse dia é, até hoje, celebrado como sendo o dia do nascimento do hip-hop.

As danças urbanas, como break e street dance, se popularizaram, junto às bases musicais que dominam atualmente o mercado. De acordo com levantamento do Spotify, uma das principais plataformas de distribuição de música atualmente, o rap/hip-hop/urban é o gênero mais ouvido do mundo. Essa popularidade se dá, também, por sua fácil adaptação aos contextos culturais locais.

Há hip-hop produzido nos Estados Unidos, na Nigéria, na Coreia do Sul e no Brasil, cada um deles se desdobrando em infinitas variação. "Aqui no Brasil mesmo, o hip-hop de São Paulo é uma coisa, o produzido no Nordeste é outro completamente diferente.

Mesmo em um movimento importante para a superação de preconceitos e que funciona como um ambiente agregador de culturas distintas, Kalyne reforça que ainda há muito caminho para ser pavimentado e desbravado. "O machismo permanece vivo no hip-hop, diria que até mais violento do que quando comecei, em 1998. Na época, não havia discussão sobre feminismo e o papel da mulher, então encontrávamos pautas comuns, como a violência policial. Com a chegada das discussões sobre o empoderamento feminino, a resposta foi bem agressiva", relata a rapper.

Apesar disso, ela enxerga o crescimento dessas pautas de maneira esperançosa. "Quando fizemos a inscrição desse festival em 2016, tínhamos uma cena muito diferente da que temos hoje, dois anos depois. A tendência é que isso se expanda ainda mais", analisa Kalyne Lima.

 

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