quarta, 19 de dezembro de 2018
Música
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Eleonora Falcone revisita poemas de Lúcio Lins em novo EP

André Luiz Maia / 06 de julho de 2018
Foto: Divulgação
“Quanto sonho há / no rio / de ser mais que rio / de ser mais que mar”. As águas normalmente são usadas como metáfora para a vontade de seguir adiante, para a liberação de sentimentos represados ou mesmo a representação visual das infinitas possibilidades de ser neste mundo. O novo EP de Eleonora Falcone, Mais que Mar, passeia por estas palavras navegáveis, tomando emprestadas as poesias do também paraibano Lúcio Lins.

Os versos que abrem este texto são de "Sanhauá", primeira canção do novo trabalho em estúdio de Eleonora em 11 anos, desde Eu Tenho um Pedaço de Sol que Guardo Comigo desde Menina (2007). Ao todo, são seis canções trabalhadas com arranjos com poucos instrumentos, evidenciando o colorido da voz da cantora. “Tive a felicidade de contar, nesta construção, com Daniella Gramani na preparação vocal”, conta Falcone.

É o primeiro trabalho na carreira em que ela assume o papel de produtora musical. Inicialmente, a ideia era fazer uma apresentação em teatro com as canções inéditas para a realização de um registro audiovisual, mas, devido a um alagamento no local da gravação, ela teve que fazer uma mudança de planos.

Os músicos que a acompanham nesta tarefa são Lucas Carvalho, no acordeon, e Gledson Meira, na percussão. As gravações aconteceram no estúdio de Giulian Cabral, em João Pessoa, e a masterização ficou por conta de Carlos Freitas. As seis faixas apresentam arranjos que lembram a música mediterrânea e ibérica, adequadas à temática das águas que perpassam por todo o EP. A última arremata a relação entre o Nordeste e essa música: o baião “Dez momentos de pedra”.

A parceria com Lúcio Lins vem de longa data. Seu primeiro contato com a poesia dele foi com “Duas margens”, musicado por Chico César. “Fiquei muito impactada pela força da canção e decidi incluí-la no repertório de Apetite, meu primeiro CD”, conta Eleonora. Na época, ela estava no Rio de Janeiro. Em uma de suas vindas para a cidade natal, teve a oportunidade de conhecer Lúcio pessoalmente.

Nasce então uma relação de confiança, na qual Lúcio a entregava livros e poemas inéditos. “Ele me estimulava muito a musicar seus poemas, e esse estímulo, além, é claro, da natureza arrebatadora de sua obra, foi muito importante pra que eu viesse a me tornar sua parceira”, comenta Eleonora. O primeiro fruto direto desse encontro foi “Carta de amor”, vencedora do Festival MPB Sesc de 2003.

Lúcio Lins morreu em 2005, vítima de um câncer. No entanto, para a cantora, seu trabalho tem uma força que transcende sua presença física. “Ele passeia entre razão e sentimento, entre forma e conteúdo, entre o etéreo e o profundo, de um jeito que me comove, dizendo tanto com tão pouco”, pontua.

Ela cita versos de uma das canções do EP, "Vestindo o poema”: “Meu exercício / de voar / é pousar / na imaginação / das asas / é fazer ninho / com as palavras”. “Dá vontade de rir e chorar, ao mesmo tempo. E, sobretudo, dá vontade de cantar”.

 

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