sexta, 06 de dezembro de 2019
Música
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Elba Ramalho lança disco combinando modernidade e tradição

Renato Félix / 16 de dezembro de 2018
Foto: Arquivo
Para sempre uma musa do forró, Elba Ramalho nunca foi de se acomodar. Muitos de seus contemporâneos resignam-se a surfar nos velhos sucessos, mas a paraibana — a quem não faltam sucessos revisitáveis — está sempre lançando material novo, se aproximando de novos compositores e experimentando novas sonoridades. O Ouro do Pó da Estrada, seu novo disco, é um reflexo desse espírito artístico.

"Esse espírito do trabalho é meu espírito de viver", diz a cantora, ao CORREIO, por telefone, de sua casa em Trancoso, Bahia. "Seria talvez mais cômodo — e, ao mesmo tempo, mais chato para um artista — criar fama e deitar na cama. Você sabe que aquilo é a fórmula, que faz sucesso e vai naquilo. Como eu vejo a maior parte dos artistas fazendo. Eu gosto muito quando eu vejo um artista que se desafia, ao invés de ficar plagiando a si mesmo. É sempre um risco que se corre, mas eu sempre tive isso no meu espírito de ser".

Elba trabalhava mais uma vez com o produtor Yuri Queiroga, filho do maestro Spok, e que esteve com ela no disco Qual o Assunto que Mais Lhe Interessa? (2007), um de seus discos em que mais buscou novas sonoridades (e ganhou seu primeiro Grammy Latino). Ele e Tostão Queiroga assinam a produção.

"Eu sempre digo que quanto mais regional, mas universal. Essa regionalidade, eu não vou perder", afirma. "Mas a música é transcendental mesmo, ela transcende a barreira da Paraíba, de Pernambuco... Posso pegar um instrumento do Haiti e jogar na minha música".

Resgate de pérolas caídas

Assim, O Ouro do Pó da Estrada combina esses dois lados: um lado que não teme ser moderna e outro em que Elba navega em mares que ela conhece de olhos fechados. Ela revisita seus velhos mestres, como Luiz Gonzaga (em "O fole roncou", de Gonzagão com Nelson Valença, canção de 1973) e Dominguinhos ("Além da última estrela", dele com Fausto Nilo, de 1992).

Elba resgata "O girassol da caverna", de Lula Queiroga, lançada por ele em 1983, e a canta com Ney Matogrosso, uma das vezes em que divide os vocais no disco e é uma faixa que mostra esse leque musical aberto de Elba.

"Meus amigos que São Paulo, do Rio, escutam, adoram, mas falam: 'Elba, não tô entendendo, que ritmo é esse?", conta. "Tem uma mistura boa de caboclinho, vassourinha, frevo e ainda botou uma batida que veio do rock no final. E essa mistura é que dá o segredo, mas é preciso ter consciência".

Elba sempre teve parcerias muito sólidas em sua trajetória e Braulio Tavares foi um dos primeiros e aqui assina um texto de abertura, a pedido de Elba. "Para que a gente voltasse ao início. Braulio sempre foi meu parceiro, desde o começo. Sempre esteve presente nos meus shows com textos, roteiros... Tudo eu trabalhava com Braulio, tudo. Quase tudo o que eu fiz na minha vida, eu tinha a caneta de Braulio presente. Eu quis que tivesse esse texto na música de abertura ('Calcanhar', de Yuri Queiroga e Manuca Bandini, um som manguebeat) porque eu acho bem emblemática e traduz muito o que eu sou".

Elba nunca tinha gravado com Ney, a ideia surgiu quando cantaram juntos em um show em Trancoso, em um verão há dois anos.

Em "O mundo" (de André Abujamra, canção de 1995), Elba convida três vozes femininas para acompanhá-la: Roberta Sá, Maria Gadu e a conterrânea Lucy Alves. "Roberta por admiração recíproca, Ela sempre me acompanhou, sempre ouviu tudo de mim, e eu sempre ouvi muito dela. A qualidade vocal dela é extraordinária. A Gadu, também por amizade, por identificação".

O encontro com Lucy naturalmente chama a atenção dos paraibanos. "E a Lucy por ser conterrânea, por estar começando, achava que tinha que dividir com ela alguma coisa. E ela me chamou para cantar aquela galope dela, 'Xaxado no chiado' e eu a convidei para vir cantar essa".

De Chico César (com Marcelo Jeneci), ela gravou "Oxente". "O Chico está sempre presente no meu trabalho. É meu compadre, ele é padrinho da minha filha", conta. "Sempre que eu vou gravar, bato na porta dele. E aí sempre vem alguma coisa".

Elba resgata canções, que se beneficiam do poder de comunicação da cantora. Em tempos nos quais a música descentralizou (o que, claro, tem seu lado positivo), ela é, ao mesmo, um farol e um megafone. A relevância da cantora faz seu novo disco receber atenção e, em troca, ela coloca sob os holofotes canções como "O fole roncou" e "O girassol da caverna".

"A minha proposta como intérprete também é essa: resgatar essas pérolas que ficaram caídas e poderão ser esquecidas facilmente", diz. "Principalmente na nova realidade da música nordestina. Qual é a banda eletrônica que vai pegar 'O fole roncou'? Não vai interessar para elas. A musicalidade que elas apresentam é outra. Eu me sinto na obrigação de fazer esse resgate".

O começo. O ano de 2019 marca os 40 anos de Ave de Prata, o primeiro disco de Elba. "Os fãs têm muito respeito por ele", lembra. "Acho que tem a sua força, ali eu estava definindo uma trajetória. Claro que eu não estava pronta, tive que lapidar, ainda tenho que lapidar muita coisa. É um trabalho forte, já mostrava... como disse Elis Regina... Segundo César Camargo Mariano, Elis Regina disse: 'Essa fica na música brasileira'".

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