terça, 25 de junho de 2019
Música
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Dori Caymmi lança CD com peça histórica de autoria de Mário Lago

Kubitschek Pinheiro / 03 de maio de 2016
Foto: Divulgação
O novo CD de Dori Caymmi é um resgate histórico. “Foru 4 Tirandente na Conjuração Baiana” é uma peça histórico-musical de Mário Lago, escrita nos anos 1970, censurada pela ditadura militar e musicada agora por Dori. É uma longa história. O disco foi gravado no estúdio Dançapé, de São Paulo e sai pelo selo Acari Records. A coordenação do projeto é de Helena Leal e Guto Burgos. Fotos e documentos de Mário Lago do acervo da família.

Tudo começou em 2014. O convite dos filhos de Mário Lago, a jornalista Graça Lago e Mário Lago Filho, foi um presente para o Dori. Ele conta: “Olha, esse convite foi singelo, por ter me dado a oportunidade de me tornar parceiro desse velho amigo, e grande brasileiro Mário Lago, que era amigo de meu pai. Só isso já é um resgate”.

E segue: “Eles vieram a minha casa aqui no Rio (hoje o apartamento onde morou seus pais Dorival e Stella Caymmi, já que o músico mora há anos em Los Angeles) e queriam que eu musicasse os textos da peça. Fui ler e fui logo pensando nas melodias. Eu tentei fazer uma coisa tradicional, queria homenagear esse grande brasileiro”, revelou.

Ainda falando dessa descoberta, Dori traz à tona um fato curioso: “Um dia meu pai me contou que esteve com Mário Lago, que tinha uma letra no bolso e não teve coragem de pedir que ele musicasse e essa letra era Amélia, muito embora a melodia de Ataulfo (Alves) é sensacional”, resume.

Esse novo trabalho de Dori Caymmi vai além da importância histórica para a cultura brasileira. “Ele traz à tona algo que estava guardado. Junto com a família de Lago resgatamos. Quando mostrei aos filhos as melodias, eles adoraram. E aí comecei a pensar nos artistas que iriam compor esse trabalho”.

Coube a Samuka Marinho fazer o desenho dos conjurados que estão na capa e encarte. O ator Milton Gonçalves faz a leitura do texto de Mário Lago na abertura do CD.

A peça que já tem sua trilha sonora com essa iniciativa da família, teve uma única leitura pública, com a participação do próprio Mário, dos atores Oswaldo Loureiro, Wanda Lacerda, Francisco Milani e Milton Gonçalves, entre outros. Foi proibida, permanecendo inédita.

“Vamos ver se a gente tem a sorte, a partir das letras para que a peça agora chegue aos palcos. Isso seria muito importante, porque o CD já está aí, com a trilha e o país precisa assistir a esse espetáculo”.

A primeira faixa “Abertura/Cantadores”, começa com voz do ator Milton Gonçalves que anuncia a canção cantada por Dori (que toca violão) e Sérgio Santos: “No dia 8 de novembro de 1799, justamente na Praça da Piedade, em Salvador, foram enforcados os pardos João de Deus Nascimento, Lucas Dantas Torres, Luiz Gonzaga das Virgens e Manuel Faustino dos Santos, todos eles acusados de chefiarem a Conjuração dos Santos ou Revolução dos Alfaiates, dos Mulatos, ou, ainda, dos Barbudos, movimento que sonhava com a independência do Brasil e uma república na qual todos os homens seriam iguais”.

Dori Caymmi diz: “É sublime esse momento. Convidei Milton Gonçalves e ele topou na hora, até porque ele já tinha participado da primeira leitura e tem muita identificação com o Mário, com esse texto que é muito forte. Ele já tinha trabalhado comigo, com Dina Sfat na Arena Conta Zumbi (musical escrito por Gianfrancesco Guarniere e Augusto Boal em 1965)”.

Não é de hoje que Dori Caymmi trabalha com o teatro. Ele estreou em 1964, na direção musical do célebre espetáculo “Opinião”, de Oduvaldo Vianna Filho, dirigido por Augusto Boal e com participação de Nara Leão, Zé Ketti e João do Valle.

“Eu tinha vinte e poucos anos e era conhecido de Oduvaldo Viana Filho da TVTupi, um craque da cultura brasileira. Foi um momento marcante no Brasil. Quando Bethania chegou para substituir Nara Leão eu já não estava mais no ‘Opinião’, quem já estava na direção musical era Suzana Moraes, a filha de Vinicius. Na primeira fase tinha Ferreira Gullar na comissão e João das Neves, diretor de teatro”.

A outra novidade é que Dori já está com um disco pronto – violão e voz com canções dele e Paulo César Pinheiro. “Tem uma com Fernando Brant, um fado com Pedro Amorim e um poema de Jorge Amado que eu musiquei”.

Com o nome do pai, Dorival Caymmi, Dori disse que sempre lembra dele com muita saudade. “Estou aqui agora na sala da casa que foi de meus pais, olhando para seus quadros, uma sereia, os auto-retratos. Sinto saudade da pessoa física e sei que aprendi muito com ele”, encerra.

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