sábado, 23 de março de 2019
Música
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Djavan fala ao Correio sobre seu novo disco ‘Vesúvio’

André Luiz Maia / 24 de novembro de 2018
Foto: Divulgação
A imagem suscitada por um vulcão como o Vesúvio, protagonista do histórico evento da destruição da cidade romana Pompeia, em 79, é múltipla. Pode ser tanto a de um perigo iminente, de uma força avassaladora contida que irrompe sem aviso ou mesmo da exuberância da natureza em sua plenitude. Vesúvio é o 24º disco de Djavan, uma tentativa, segundo o próprio, de se comunicar mais diretamente com o público por sua necessidade de se expressar com clareza em tempos nebulosos.

O músico alagoano afirma que o nome escolhido foi devido a uma opção puramente estética. “Vesúvio é uma palavra solar, bonita e vindo de onde vem imprime certa força, certo poder”, pontuou Djavan, em entrevista ao CORREIO. Apesar disso, é inevitável não traçar conexões com uma carga política um pouco mais acentuada em algumas de suas faixas.

O disco já está disponível nas principais plataformas digitais e também sai em versão física através da Luanda Records, selo criado pelo próprio Djavan para autogerir sua carreira. O gesto, feito em 2004, foi visto como um ato ousado, já que era o primeiro artista do alto escalão da música popular brasileira a tomar o que, na época, era o caminho inverso, ao se desvencilhar de uma grande gravadora para singrar pelos mares do mercado independente.

A identidade visual do projeto é uma obra de arte à parte. A capa de Vesúvio traz Djavan coberto por tinta escura, essencialmente em preto, com tons azulados e alguns detalhes dourados, como os dedos e a pálpebras. “Deu muito trabalho para fazê-la, foram quase três horas para me pintar e chegar ao resultado que é visto ali. Queria fazer algo diferente de tudo o que já fiz, que traduzisse a potência do nome, e acho que ela ficou bem boa”, completa o músico.

Por falar em potência, Djavan afirma que trata-se de um disco essencialmente pop, um termo que pode assustar seus fãs. As harmonias complexas e apuro estético que são suas marcas registradas continuam ali, assim como sua escrita permanece com a personalidade que conhecemos. O que muda é a postura, um pouco mais direta.

“Solitude” foi a primeira primeira faixa de Vesúvio que os fãs puderam ouvir. A canção é introspectiva e revela um pouco da perplexidade que Djavan estava sentindo em relação a tudo que o rodeava durante a produção do disco, concentrado nos versos: “Vidas fardos/Meros dados/Incontáveis casos/De desamor/Quanta dor/Muita dor/Quem é que sabe/O quanto lhe cabe/Dessa solitude?/Por isso a hora/De fazer é agora/Tome uma atitude”.

Outro momento que também pode ser lido como uma declaração mais direta sobre as tensões sociais que permearam o Brasil durante o período eleitoral está em "Viver é dever", uma faixa que bebe do rock para dizer: "Tudo vai mal/Muito sal/Nada vai bem/Pra ninguém/Nessa pressão/Quem há de dar a mão/Pra que o mundo/Saia lá do fundo/Pra respirar/E não morrer?”.

Todas essas angústias e aflições, de acordo com o músico, foram se sedimentando naturalmente no fundamento de Vesúvio. “Quando a gente faz um novo trabalho, recorremos a um material que está ‘estocado’ no subconsciente. Meu disco anterior, Vidas Pra Contar, é de 2015, e logo em seguida eu saí em turnê mundial, passei por vários lugares, muitos estados brasileiros. Você vê e ouve muita coisa e absorve aquilo, muita informação. Ao fazer esse trabalho, a gente deságua isso tudo nele. A gente viveu ultimamente a questão política, de valores e é natural que isso apareça nas músicas”, lembra Djavan.

O tom confessional dessas aflições também se apresenta na romântica “Tenho medo de ficar só”. Embora o cantor faça questão de salientar que não se trata necessariamente de uma faixa autobiográfica, a premissa da faixa se relaciona diretamente com seus anseios pessoais, especialmente no trecho em que a canção afirma que amar o eleva a outros patamares.

A sonoridade do disco passeia por gêneros como pop, rock e também carrega em seu DNA elementos sonoros que evocam à sua própria ancestralidade. A presença do violão flamenco, executado por Torcuato Mariano em “Vesúvio”, além da percussividade tribal, evocando a tradição musical africana, são recorrentes no álbum. Além das canções mais pop, o virtuosismo musical de Djavan também se faz presente em faixas como "Madressilva", um ponto fora da curva, que evoca o ambiente mais orquestral.

Vesúvio também quebra um jejum em seus discos de estúdio que vinha sendo mantido desde 2001: uma parceria. Ao compor a canção "Meu romance", Djavan percebeu que ela poderia ser vertida para o espanhol e lançada no mercado latino. Para isso, convocou o uruguaio Jorge Drexler. “A música é um bolero meio ‘espanholado’ e eu achei que ela soaria bem na língua. Aí convidei o Jorge porque gosto da obra, gosto dele cantando”, conta. Drexler gravou em Madri, onde reside atualmente, Djavan aqui no Brasil e a mágica acontece. “Gostei do resultado”, conclui.

Fascínio. Em contraste à imagem poderosa e imponente do Vesúvio, o disco traz outra referência alegórica forte, representada pela figura da orquídea. A canção que leva o nome da flor é um reflexo de uma paixão pessoal de Djavan, que cultiva flores, especialmente orquídeas, a pelo menos 15 anos. “É o prazer pela beleza, pelo perfume”, resume.

Em um sítio no meio da Mata Atlântica em Petrópolis, no Rio de Janeiro, o músico se dedica a essa paixão, inspiração para a faixa. Ao todo, seu imenso jardim ostenta 850 plantas, de 360 espécies — incluindo a madressilva, que dá título a uma das faixas do disco. “Orquídea”, por outro lado, é outra exceção no disco, já que se trata de um samba, outra de suas paixões íntimas. A letra cita com a naturalidade estranhamente habitual da complexidade dos versos de Djavan os nomes científicos de pelo menos 15 dessas espécies de orquídeas que ele cultiva. Dentre elas, sobressai uma tal de “javanica”, produzindo um trocadilho sonoro divertido com o nome do cantor.

Como forma de exemplificar a complexidade dos seus versos, é costumeiro citarem a letra de “Açaí”, do disco Luz, lançado em 1982: “Açaí: guardiã/ Zum de bezouro: um imã/ Branca é a tez da manhã”. À parte da discussão (tola) a respeito da falta de sentido dos versos de seu refrão, a letra faz uma costura de imagens e temas encontrados ao adentrar na floresta amazônica.

A admiração pela natureza é algo que o músico afirma vir desde pequeno, na infância de criança nordestina em Maceió, capital de Alagoas. “Sempre tive um olhar de profunda curiosidade com relação a cor, textura, com relação a bichos, sou apaixonado pela mata, flores, plantas, de maneira geral. Nesse disco, essa paixão continua, simplesmente”, enfatiza.

A imagem suscitada por um vulcão como o Vesúvio, protagonista do histórico evento da destruição da cidade romana Pompeia, em 79, é múltipla. Pode ser tanto a de um perigo iminente, de uma força avassaladora contida que irrompe sem aviso ou mesmo da exuberância da natureza em sua plenitude. Vesúvio é o 24º disco de Djavan, uma tentativa, segundo o próprio, de se comunicar mais diretamente com o público por sua necessidade de se expressar com clareza em tempos nebulosos.

O músico alagoano afirma que o nome escolhido foi devido a uma opção puramente estética. “Vesúvio é uma palavra solar, bonita e vindo de onde vem imprime certa força, certo poder”, pontuou Djavan, em entrevista ao CORREIO. Apesar disso, é inevitável não traçar conexões com uma carga política um pouco mais acentuada em algumas de suas faixas.

O disco já está disponível nas principais plataformas digitais e também sai em versão física através da Luanda Records, selo criado pelo próprio Djavan para autogerir sua carreira. O gesto, feito em 2004, foi visto como um ato ousado, já que era o primeiro artista do alto escalão da música popular brasileira a tomar o que, na época, era o caminho inverso, ao se desvencilhar de uma grande gravadora para singrar pelos mares do mercado independente.

A identidade visual do projeto é uma obra de arte à parte. A capa de Vesúvio traz Djavan coberto por tinta escura, essencialmente em preto, com tons azulados e alguns detalhes dourados, como os dedos e a pálpebras. “Deu muito trabalho para fazê-la, foram quase três horas para me pintar e chegar ao resultado que é visto ali. Queria fazer algo diferente de tudo o que já fiz, que traduzisse a potência do nome, e acho que ela ficou bem boa”, completa o músico.

Por falar em potência, Djavan afirma que trata-se de um disco essencialmente pop, um termo que pode assustar seus fãs. As harmonias complexas e apuro estético que são suas marcas registradas continuam ali, assim como sua escrita permanece com a personalidade que conhecemos. O que muda é a postura, um pouco mais direta.

“Solitude” foi a primeira primeira faixa de Vesúvio que os fãs puderam ouvir. A canção é introspectiva e revela um pouco da perplexidade que Djavan estava sentindo em relação a tudo que o rodeava durante a produção do disco, concentrado nos versos: “Vidas fardos/Meros dados/Incontáveis casos/De desamor/Quanta dor/Muita dor/Quem é que sabe/O quanto lhe cabe/Dessa solitude?/Por isso a hora/De fazer é agora/Tome uma atitude”.

Outro momento que também pode ser lido como uma declaração mais direta sobre as tensões sociais que permearam o Brasil durante o período eleitoral está em "Viver é dever", uma faixa que bebe do rock para dizer: "Tudo vai mal/Muito sal/Nada vai bem/Pra ninguém/Nessa pressão/Quem há de dar a mão/Pra que o mundo/Saia lá do fundo/Pra respirar/E não morrer?”.

Todas essas angústias e aflições, de acordo com o músico, foram se sedimentando naturalmente no fundamento de Vesúvio. “Quando a gente faz um novo trabalho, recorremos a um material que está ‘estocado’ no subconsciente. Meu disco anterior, Vidas Pra Contar, é de 2015, e logo em seguida eu saí em turnê mundial, passei por vários lugares, muitos estados brasileiros. Você vê e ouve muita coisa e absorve aquilo, muita informação. Ao fazer esse trabalho, a gente deságua isso tudo nele. A gente viveu ultimamente a questão política, de valores e é natural que isso apareça nas músicas”, lembra Djavan.

O tom confessional dessas aflições também se apresenta na romântica “Tenho medo de ficar só”. Embora o cantor faça questão de salientar que não se trata necessariamente de uma faixa autobiográfica, a premissa da faixa se relaciona diretamente com seus anseios pessoais, especialmente no trecho em que a canção afirma que amar o eleva a outros patamares.

A sonoridade do disco passeia por gêneros como pop, rock e também carrega em seu DNA elementos sonoros que evocam à sua própria ancestralidade. A presença do violão flamenco, executado por Torcuato Mariano em “Vesúvio”, além da percussividade tribal, evocando a tradição musical africana, são recorrentes no álbum. Além das canções mais pop, o virtuosismo musical de Djavan também se faz presente em faixas como "Madressilva", um ponto fora da curva, que evoca o ambiente mais orquestral.

Vesúvio também quebra um jejum em seus discos de estúdio que vinha sendo mantido desde 2001: uma parceria. Ao compor a canção "Meu romance", Djavan percebeu que ela poderia ser vertida para o espanhol e lançada no mercado latino. Para isso, convocou o uruguaio Jorge Drexler. “A música é um bolero meio ‘espanholado’ e eu achei que ela soaria bem na língua. Aí convidei o Jorge porque gosto da obra, gosto dele cantando”, conta. Drexler gravou em Madri, onde reside atualmente, Djavan aqui no Brasil e a mágica acontece. “Gostei do resultado”, conclui.

Fascínio. Em contraste à imagem poderosa e imponente do Vesúvio, o disco traz outra referência alegórica forte, representada pela figura da orquídea. A canção que leva o nome da flor é um reflexo de uma paixão pessoal de Djavan, que cultiva flores, especialmente orquídeas, a pelo menos 15 anos. “É o prazer pela beleza, pelo perfume”, resume.

Em um sítio no meio da Mata Atlântica em Petrópolis, no Rio de Janeiro, o músico se dedica a essa paixão, inspiração para a faixa. Ao todo, seu imenso jardim ostenta 850 plantas, de 360 espécies — incluindo a madressilva, que dá título a uma das faixas do disco. “Orquídea”, por outro lado, é outra exceção no disco, já que se trata de um samba, outra de suas paixões íntimas. A letra cita com a naturalidade estranhamente habitual da complexidade dos versos de Djavan os nomes científicos de pelo menos 15 dessas espécies de orquídeas que ele cultiva. Dentre elas, sobressai uma tal de “javanica”, produzindo um trocadilho sonoro divertido com o nome do cantor.

Como forma de exemplificar a complexidade dos seus versos, é costumeiro citarem a letra de “Açaí”, do disco Luz, lançado em 1982: “Açaí: guardiã/ Zum de bezouro: um imã/ Branca é a tez da manhã”. À parte da discussão (tola) a respeito da falta de sentido dos versos de seu refrão, a letra faz uma costura de imagens e temas encontrados ao adentrar na floresta amazônica.

A admiração pela natureza é algo que o músico afirma vir desde pequeno, na infância de criança nordestina em Maceió, capital de Alagoas. “Sempre tive um olhar de profunda curiosidade com relação a cor, textura, com relação a bichos, sou apaixonado pela mata, flores, plantas, de maneira geral. Nesse disco, essa paixão continua, simplesmente”, enfatiza.

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