terça, 19 de janeiro de 2021

Música
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Depois de quase 50 anos, Geraldo Vandré quebra silêncio artístico no Brasil

Audaci Júnior / 22 de março de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Lá se foi quase meio século quando o cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré pisou em um palco pela última vez no Brasil – em 12 de dezembro de 1968, um dia antes da publicação do Ato Institucional nº5, o infame AI-5, plena Ditadura Militar.

“Presente mesmo é poder estar aqui”, contou Vandré, emocionado, falando também que não sabe se fará novas apresentações novamente. Garantiu que não acontecerá em nenhum outro lugar do país. “É uma volta circunscrita à Paraíba”.

O momento histórico com a presença de um dos principais ícones da música popular brasileira acontecerá duas vezes, nessa quinta (21) e sexta-feira (22) sempre às 20h30, na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, localizada no Espaço Cultural, em João Pessoa. Segundo a assessoria da Secult-PB, o local (cerca de 1/6 da capacidade do Pedra do Reino) foi um pedido do próprio artista.

As apresentações (cujos ingressos gratuitos esgotaram-se rapidamente nessa quarta-feira (21)) também se dividirão em dois atos: no primeiro, acompanhado da pianista e cantora Beatriz Malnic, será executada seis peças para piano compostas pela dupla nos anos 1980.“Conheci o Geraldo em 1982 e cheguei a participar de um show que ele deu no Paraguai, em 1985”, relembrou Malnic. Nessa época, segundo ela, Vandré conheceu o lado erudita da cantora e pianista, incentivando-a também para investir como compositora.

O resultado foram os estudos para piano que serão apresentados, criados entre 1985 e 87. “São três cantilenas, um interlúdio, um estudo que ele chama ‘Mais que sonata’ e o tangará, que mistura melodias nordestinas com viagens ao tango”.

Inédita em terras paraibanas, as peças para piano clássico já foram apresentadas em apenas duas ocasiões até esta sexta-feira (22) – na Biblioteca Municipal Mário de Andrade (SP), nos anos de 1987 e 1993.

Já no segundo ato, a Orquestra Sinfônica da Paraíba se apresenta acompanhada do Coro Sinfônico do Estado, no qual interpretarão composições do homenageado, como “Mensageira”, “Fabiana”, “Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores)” e “À minha pátria” (composição junto com Manduka), essas duas últimas com participação da Beatriz Malnic e do músico Alquimides Daera.

“Geraldo Vandré é a sequência de uma fila enorme em prol da Música Popular Brasileira”, coloca Luiz Carlos Durier, maestro-titular da OSPB. “Vamos fazer com que seja memorável e que fique na cabeça de todos nós para sempre”.

“Estou cometendo um crime de ser erudito por ser esse ser subdesenvolvido”, explicou Vandré. “Se dependesse da música para viver, nem estaria aqui”, brincou.

Para poucos

Durante a coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (21) na própria Sala José Siqueira (antigo Cine Bangüê, antes da reforma do Espaço Cultural), Vandré foi interrompido por um coro de fãs cantando lá fora “Caminhando (Pra não dizer que não falei das flores)”. O próprio autor se espantou: “Que loucura!”

O público estava na fila formada desde às 5 da manhã para pegar os ingressos gratuitos – distribuídos a partir das 10h, àquela altura já tinham se esgotado. O povo, naquela hora, não perdoou e trocou o hino de resistência da Ditadura Militar pela batida na mesma tecla: “É marmelada!”.

O local, que comporta 580 pessoas, foi uma escolha de Vandré. A Secult-PB está estudando um meio de transmitir ao vivo por um telão na Praça do Povo, mas até o fechamento da edição a medida ainda não havia sido confirmada.

No auge da carreira, depois de fazer o Maracanãzinho lotado, no Rio de Janeiro, cantar o refrão do mesmo “Caminhando”, ele foi obrigado a sair do Brasil. Tempos depois, o regime militar condicionou sua permanência no país ao compromisso de não cantar músicas de protesto. Desde então, não fez mais nenhuma apresentação pública.

“O Maracanãzinho foi definitivo. Antes, eu fazia espetáculos em teatros como esse, mas para 25 mil pessoas, extrapolou”, explicou, justificando que prioriza mais a qualidade do que a quantidade para esse retorno.

Outro ponto é que a apresentação será gravada, mas pode acontecer de não ser lançado como o registro em DVD do encontro de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, realizada em 2016, no Teatro Pedra do Reino.

De acordo com o Secretário de Cultura Lau Siqueira, o projeto de DVD vai depender da vontade do artista.

Perguntado sobre qual seria o valor do cachê dessas apresentações, o autor de músicas como “Disparada” desconversou: “Sou a puta mais cara do Brasil”, classificou-se, aos sorrisos.

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