quarta, 14 de novembro de 2018
Música
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Caetano Veloso fala ao CORREIO sobre show com os filhos em JP

Kubitschek Pinheiro / 24 de outubro de 2018
Foto: Divulgação
“É um show familiar, nascido da minha vontade de ser feliz”, disse Caetano Veloso quando anunciou que se apresentaria com seus filhos Moreno, Zeca e Tom, em outubro do ano passado. Um ano depois, pai e filhos chegam a João Pessoa para apresentação única nesta quinta-feira da turnê Ofertório, no Teatro Pedra do Reino, às 21h. É imperdível.

“Numa marcha-frevo-axé que fiz para o carnaval da Bahia pouco depois que voltei do exílio, digo 'Sou família demais'. E é verdade. Sempre fui, com meus pais, meus irmãos, meus primos. Com meus filhos sou muito mais ainda. Ser família é amar e respeitar os parentes. Talvez eu apenas tenha dado sorte de ter pais, irmãos e filhos bons de coração. Mas o fato é que cantar e tocar junto a Moreno, Zeca e Tom, homenageando, nas letras, minha mãe, meu pai, meus irmãos - e toda a cultura do Recôncavo - é a única coisa que, hoje, me deixa feliz”, diz Caetano em entrevista ao CORREIO.

É um show também dedicado às mães, do artista e dos filhos. “Ofertório”, de fato, é o nome de uma música que Caetano Veloso escreveu para sua mãe, Dona Canô. Escutar as canções em leituras mais intimistas, praticamente acústicas, leva o público ainda mais para junto da obra de Caetano.

No palco, pai e filhos fazem a festa ofertando os sucessos da carreira de Caetano, como “Alegria alegria”, “Boas vindas”, “Genipapo absoluto”, “Trem das cores”, “O leãozinho”, “Gente”, “Ela e eu” (essa feita para a ex-mulher Dedé Veloso, e que Bethânia gravou em 1979 no LP Mel; Caetano nunca tinha gravado), “Eu não me arrependo” (para Paula Lavigne), “Força estranha” e “O seu amor” (de Gilberto Gil, da turnê histórica Doces Bárbaros com Gil, Gal, Caetano e Betânia) e muitas outras.

Estas, além das composições dos filhos, sós ou em parceria com o pai. Mas temos curiosidades. Moreno compôs a música “Um canto de afoxé para o bloco do Ilê” (que está no setlist) com apenas 9 anos – sua primeira música em parceria com o pai. Nessa hora as vozes dos quatro se casam. Moreno canta "O leãozinho" com assovios do pai. Quando cantam "How beautiful could a being be" (de Moreno e Caetano), o filho pega o prato de Dona Edith e dança o samba do Recôncavo e ainda chama o pai para fechar a performance. É demais.

Já Zeca, o filho do meio, estreante no palco (como conta o pai, em determinado momento do show), chega com sua primeira composição “Todo homem”, que logo se tornou um sucesso. Ele conta como nasceu essa canção, que diz que todo homem precisa de uma mãe: “Foi numa manhã, uns três anos atrás. Eu estava com Tom, meu irmão, e o Lucas da banda Dônica, de que Tom faz parte. Me veio uma melodia à mente, enquanto eu tocava os acordes da primeira parte da música, e fiquei cantarolando por um tempo”.

Letra e melodia ficaram prontas nesse mesmo dia? “Decidi me arriscar a escrever, para a ideia que tinha aparecido, uma letra mais bem feita do que as que fazia antes. A letra fala do momento em que foi escrita, de algumas lembranças e de mim de forma um pouco enigmática”, lembra.

Zeca adquiriu segurança

Essa é primeira vez que Tom, Moreno e Zeca pisam em João Pessoa. O mais novo dos irmãos, Tom também traz lindas composições para o show, como "Um só lugar" (dele com Cézar Mendes, um dos homenageados do show). Aliás, Tom se aventura e dá umas pernadas num estilo minimalista e dança no palco enquanto o pai canta o funk "Alexandrino", feita para essa turnê.

Zeca confirma que a participação familiar lhe deu mais segurança no palco. “O mais difícil para mim é a insegurança que tenho com os instrumentos, estou aprendendo a tocar nos shows e passagens de som. Comecei o show tocando muito pior, nunca fui músico de nível profissional. No início ficava muito nervoso, agora estou melhorando. A presença deles ajuda, sim”.

Outra beleza (e são muitas) do show Ofertório é quando Zeca Veloso canta “Alguém cantando”, que está no disco Bicho, de 1977, e seu pai canta com a irmã dele Nicinha. Na voz filho (que tem o nome do avô, Seu Zeca Veloso), a canção ficou mais intensa, uma beleza sem igual. “Não lembro bem quem pensou nela, ou meu pai ou eu. Foi uma das primeiras que tocamos em casa, gostamos do resultado e botamos logo no repertório”, lembra.

Curioso saber como se deu ao longo do tempo o encontro dos filhos com o cancioneiro do pai. Caetano conta: “Crescendo, Tom encontrou colegas na escola com grande talento musical. Por outro lado, Cezar Mendes, meu conterrâneo de Santo Amaro, o ensinou a tocar violão. Hoje ele é o mais musical de nós quatro. Isso é fascinante e traz grande alegria para mim, para Moreno e para Zeca. Este último faz umas canções personalíssimas e ouve muita coisa de diversas épocas. Sua 'Todo homem' é uma das músicas mais emocionantes que já ouvi. Moreno já faz tudo de refinado e elegante desde menino. Quando lançou o +2, mostrou-se mais fino ainda. E no Coisa Boa é divino”.

Zeca já é um artista que sustenta no palco não por ser filho de Caetano Veloso, mas por saber se impor com sua voz e poder tocar instrumentos como violão, guitarra e teclados. E claro, ele tem influências: “São muitas, de muitos tempos diferentes da minha vida”, fecha.

 

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