quarta, 12 de maio de 2021

Música
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Black MUSIC: Jorge Ailton faz “volta às origens” com “Arembi”

André Luiz Maia / 07 de agosto de 2018
Foto: Divulgação
Uma verdadeira celebração à black music. É com esta proposta que o artista Jorge Ailton lança seu disco mais recente, Arembi. O título, uma espécie de "aportuguesação" da sigla R&B (rhythm & blues), sintetiza a proposta do disco, uma leitura bastante brasileira do gênero musical criado nos Estados Unidos, evidenciando os códigos e maneirismos criados aqui, do lado debaixo da linha do Equador.

"Sempre fui apaixonado pelo gênero e esse disco foi uma maneira de trazer minha própria abordagem para ritmos como soul, funk e R&B", salienta o músico, em entrevista ao CORREIO. O que se ouve no Arembi é, portanto, uma declaração apaixonada aos ritmos e a cadência dos bailes charme, das noites de improviso e da ebulição musical da cena carioca, de onde Jorge veio.

O currículo do baixista é robusto. Desde 1999, integrou a banda de artistas como Sandra de Sá (1999-2004), de quem foi diretor musical por dois anos, Toni Garrido (2003-2005), Mart’nália (2006-2007), Paula Toller (2007-2010) e Lulu Santos (2010-2018), sua parceria mais duradoura.

Antes disso tudo, em 1997, Ailton integrou o quarteto Funk You, que fez sucesso nas noites cariocas com um som calcado na sonoridade setentista de ícones da black music como o paraibano Cassiano e Sandra de Sá. Logo após o lançamento do primeiro álbum do grupo, em 2005, Jorge decide trilhar seu próprio caminho, que resultaria em dois discos plurais, expandindo suas bases sonoras para além do funk soul, explorando fusões com gêneros musicais como o rock.

No entanto, com o novo trabalho, sua ideia é fazer uma espécie de retorno às origens – embora ele nunca tenha de fato abdicado de suas bases sonoras. “Quando eu decidi partir para uma carreira solo, eu queria me distinguir do trabalho que fazia com o Funk You, arriscar. Depois de dois discos, acho que já me sinto mais seguro em fazer um trabalho totalmente dedicado a essa sonoridade que me formou enquanto músico”, explica o baixista.

Para esta viagem, ele contou com diversos parceiros que lhe cantaram o caminho das pedras, a começar por nada mais, nada menos que Lulu Santos. "Ele é um cara incrível, dono de um caminhão de hits. Eu fico muito admirado com a capacidade que ele tem de fazer trabalhos muito refinados sem perder essa comunicação com o público, essa pegada pop", declara Ailton. A faixa-título veio desse diálogo.

A letra de “Arembi", assinada por Lulu, fala sobre seu fascínio instantâneo ao ouvir um R&B pela primeira vez. As batidas da música provocam sensações físicas e, de acordo com Jorge, isso sumariza com perfeição sua própria relação com a música. “Logo no começo, Lulu escreve ‘preste atenção, vou me revelar’. É exatamente isso que eu estava procurando enquanto produzia o álbum. Tem muito de mim enquanto pessoa aqui”, ressalta o músico.

Quem acha que a dita black music é um gênero musical monolítico comete um grande equívoco, pois há diversas vertentes que compõem esse som. Tem funk “racha assoalho”, como “Coadjuvante”, uma das faixas do disco. “Deliciosamente” faz uma mescla de samba e soul, abrindo espaço para outra leitura bem carioca do ritmo, com o funk melody “Isso que não tem nome”, próximo das baladas lançadas por Claudinho e Buchecha em pleno anos 1990.

A sonoridade de Arembi é azeitada pelo produtor musical Fael Mondego, que ficou responsável por dar um tom de organicidade ao disco que Jorge Ailton tanto queria. “A gente tem recursos tecnológicos diversos e eles podem ser usados para criar sons incríveis, mas queria algo mais cru para reforçar esse sentimento de entrega que as músicas em si passam”, revela o músico.

Arembi resulta em um trabalho coeso, replexo de paixão e riqueza musical. No tempo em que está cada vez em alta o lançamento de singles e músicas avulsas, vale a pena parar para entrar na experiência do álbum.

 

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