sexta, 26 de fevereiro de 2021

Música
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Pé-de-serra vem perdendo espaço nas festas populares do Nordeste em junho

André Luiz Maia / 30 de maio de 2017
Foto: Divulgação
Diante do processo evolutivo, certas práticas caem em desuso, outras se fortalecem sob o espectro da palavra tradição. Nesta dinâmica, outro fator também entra na matemática: as práticas mercadológicas. Nessa trincheira, o forró tradicional está em franca desvantagem. O que os profissionais do gênero atestam é que há cada vez menos espaço, em condições esquisitas. O CORREIO foi atrás de alguns forrozeiros que pudessem nos apresentar pontos de vista que esclareçam o tamanho que o forró de raiz tem hoje em dia dentro do mercado.

As discussões ficaram mais acirradas com a divulgação da programação do São João de Campina Grande deste ano. Pela primeira vez, uma empresa privada ficou encarregada de organizar o evento: a Aliança, que recebe um patrocínio de R$ 2,9 milhões da Prefeitura de Campina Grande. Mas a configuração da programação mudou drasticamente.

Houve um aumento de atrações do universo da música sertaneja: Luan Santana, Henrique e Juliano, Fernando e Sorocaba, César Menotti e Fabiano, Thaeme e Thiago, Léo Magalhães, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria, Bruno e Marrone e Thiago Farra. O gênero dominou a programação.

Como consequência, figuras já consagradas na festividade junina da cidade deixaram de se apresentar, sendo o caso mais emblemático o de Jairo Madruga, há 34 anos a voz que abria o São João de Campina. Este ano, foi descartado. Contudo, a cantora Sandra Belê, um dos nomes da geração mais jovem que canta forró tradicional, alerta que esse escanteamento não foi súbito.

"Apesar de ter muita atração nordestina nas edições anteriores, o forró tradicional já era relegado a dias com menor público, como os primeiros dias da semana, segunda, terça, quarta-feira. Esse ano foi algo descarado, mas antes tinha essa 'preocupação' em ter forró tradicional, só que como uma cota, para preencher espaço", ressalta.

Nome que dispensa apresentações, Cecéu, da dupla com Antonio Barros, há tempos que não se apresenta em grandes festas como a do São João de Campina Grande. No entanto, o sentimento de insatisfação também lhe move a tecer críticas.

"Realmente,  nós chegamos a um ponto de que não precisamos garimpar espaços nessas festas, temos uma carreira longa. Mas é um absurdo, fiquei muito sentida por todos os músicos que continuam defendendo o verdadeiro forró serem escanteados dessa forma. A culpa disso é dos contratantes, não do povo paraibano", avalia.

Sandra, por outro lado, joga na conta da gestão pública. "Para mim, isso tudo fica na conta da Prefeitura de Campina Grande. Ela que optou por entregar uma festa tradicional, do povo, para uma empresa privada. Esse ano já está sendo tudo cercado, não me espantaria se no ano que vem comecem a cobrar ingressos", observa com preocupação.

Mas engana-se quem acredita que essa situação se dá apenas em Campina Grande. "Eu percebo isso em muitas festas aqui pela Paraíba. Ano passado levei meu show de São João para dez cidades. Este ano, nenhuma quis me chamar, alegando a necessidade de uma rotatividade de artistas. No entanto, se artistas com menos tempo de carreira chegam por lá, alegam a falta de experiência e de repercussão pública como impeditivo. É algo muito esquisito", afirma Sandra Belê.

A visão é compartilhada por Flávio José que, assim como Cecéu, é um nome de peso e com uma discografia extensa no que diz respeito a forró tradicional. "O espaço está diminuindo demais. Já cheguei a fazer 24 shows em junho, mas há dois anos não passo dos catorze. É no Nordeste inteiro esse processo", explica o músico, que cita as festas de São João de Caruaru e de cidades baianas como exemplos do mesmo processo pelo qual Campina Grande passa.

Ano após ano, o espaços para forró fora do período junino já se encontram reduzidos, como lembra Sandra Belê. "A gente ainda faz, no circuito independente, festas e shows com bilheteria, mas está longe de ser algo satisfatório. Esperamos o ano todo por junho para tocar, mas está difícil. Estão se utilizando do discurso de crise para nos excluir da programação", denuncia.

Flávio não enxerga um futuro positivo a respeito dessa questão. "Realmente são poucas as esperanças. E eu falo isso do alto da minha trajetória e discografia, imagino que para quem está começando no forró a situação seja muito mais difícil", avalia. "Eu acho que a situação só muda se a classe artística se mover, se posicionar. Estamos conversando muito sobre o assunto e a insatisfação é geral", conta Sandra.

Assim como a cena pernambucana, que teve que se mobilizar para conquistar políticas de valorização da cultura do frevo, talvez seja a hora dos forrozeiros se movimentarem e reforçarem o forró tradicional enquanto peça-chave da cultura nordestina.

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