quarta, 19 de dezembro de 2018
Música
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Ângela Maria foi uma das maiores representantes da era de ouro do rádio

André Luiz Maia / 02 de outubro de 2018
Foto: Divulgação
A Sapoti em seu último ato. Ângela Maria sai de cena aos 89 anos com um legado raríssimo. Em atividade desde os anos 1950, passou por altos e baixos, conquistando o status de lenda viva da música ao ser referendada como influência de grandes artistas, e nunca parou. Foram quase 60 anos ininterruptos de música. Ela morreu no último sábado e foi enterrada no domingo. Nos últimos anos, a cantora concedeu duas grandes entrevistas ao CORREIO, uma a Kubitschk Pinheiro e outra ao jornalista que assia essa matéria.

Nomes importantes da música se manifestaram. Elza Soares postou no Twitter: "Uma das maiores vozes do Brasil. Salva de palmas para essa rainha do rádio, que infelizmente acaba de sair de cena. Brilhe nos palcos do céu, minha querida".

Alcione optou pelo Instagram para deixar sua mensagem. "Foi-se a minha grande referência como cantora. Aprendi muito ouvindo Ângela Maria cantar e, agora, junto com a saudade, ficam meus eternos agradecimentos por todas as coisas lindas que ouvi em sua voz", declarou a Marrom.

Nascida em 13 de maio de 1929, em Conceição de Macabu, distrito de Macaé, no Rio de Janeiro, seu nome de batismo é Abelim. Ângela Maria surgiria anos depois, quando já adulta sairia da casa dos pais para tentar uma carreira na capital como cantora de rádio sem que a família soubesse de seu intento.

O ano era 1948 e os grandes programas de auditório transmitidas por áudio eram a grande vitrine para artistas iniciantes. Ângela Maria passou pelos principais do Rio de Janeiro, como Pescando Estrelas, de Arnaldo Amaral, na Rádio Clube do Brasil; Hora do Pato, de Jorge Curi, na Rádio Nacional; Trem da Alegria, dirigido pelo Trio de Osso (Iara Sales, Lamartine Babo e Héber de Bôscoli), na Rádio Nacional, e Papel Carbono, de Renato Murce, na Rádio Nacional, além do famoso programa de Ary Barroso, na Rádio Tupi.

Quando esteve na Paraíba em 2015, conversou com o CORREIO, sobre esta época do início da carreira, da qual lembrava com carinho. “Eu fugia da igreja aos domingos e ia me apresentar no programa de calouros da Hora do Pato, na Rádio Nacional”, afirmou na época.

Em sua primeira performance na rádio, ficou batante nervosa, esqueceu a letra e saiu do ritmo enquanto cantava o samba-canção "Fuga", de Renato de Oliveira. O medo de perder o emprego e ter de voltar para a casa dos pais era grande, mas uma segunda chance foi concedida. Agora, ela teria uma semana para criar um repertório próprio, deixando de emular os trejeitos e maneirismos de outras divas consolidadas da época, como Dalva de Oliveira. Foi o começo de tudo.

Sua voz grande, clara e carregada de uma interpretação bastante sensível e dramática chamou a atenção dos ouvidos de produtores e gravadoras. Sua estreia em discos foi em 1951, pela RCA Victor, gravando os sambas "Sou feliz", de Augusto Mesquita e Ari Monteiro, e "Quando alguém vai embora", de Cyro Monteiro e Dias da Cruz.

Dedicou sua vida a interpretar principalmente sambas-canções, mas também gravou muitos boleros, tangos e versões de baladas e músicas espanholas e italianas. Entre seus maiores sucessos estão "Nem eu", de Dorival Caymmi; "Orgulho", de Waldir Rocha e Nelson Wederkind; "Lábios de mel", de Waldir Rocha; "Vida de bailarina", de Américo Seixas e Chocolate; "Abandono" e "Babalu", de Margarita Lecuona, demonstrando nesta última boa dose de seus dotes vocais.

Em 1982, ela gravou o LP Angela e Cauby, parceria com Cauby Peixoto, um de seus grandes admiradores. No repertório, canções frescas, de compositores da época, como "Começaria tudo outra vez", de Gonzaguinha; "Meu bem querer", de Djavan, e "Boa noite amor", de Francisco Mattoso e José Maria de Abreu. A reprise deste encontro aconteceria em 2000, em show na praia de Copacabana comemorativo aos 103 anos do bairro.

Apesar de estar aberta a novidades, ela se preocupava com o que chamava de "música brasileira genuína". Na conversa com o CORREIO em 2015, Ângela Maria fala disso ao relembrar a Era de Ouro do Rádio.

“Eu fico triste quando deixam de valorizar nossa música por conta desses ritmos doidos de fora. Não sou contra eles, porque a juventude sempre inventa, não é? (risos) Eu já fui jovem e sei bem como é, mas continuo trilhando meu caminho, com minha música”, enfatizou a cantora.

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