quarta, 23 de setembro de 2020

Luto
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Luzardo Alves: Uma vida dedicada ao humor e às charges

Aline Martins / 19 de dezembro de 2016
Foto: Arquivo
“Meu pai sempre amou o humor e fazer charges... Para ele era a coisa melhor do mundo”, lembrou Letícia Maria da Costa, 61 anos, filha mais velha do chargista paraibano Luzardo Alves, que faleceu na noite do último sábado (17), aos 84 anos. Ele sofreu um ataque fulminante, segundo informou a própria família. Luzardo era responsável pelas charges do Jornal Já desde 2014 e esse era um grande sonho dele que foi realizado, como revelou a filha. “O sonho dele era trabalhar no Correio da Paraíba. Ele pediu a Deus 3 anos depois...”, comentou que esse pedido foi feito após ele sofrer naquele ano um início de infarto. Ele tomava medicamentos, pois o coração estava maior do que o normal. Para amigos e chargista do Estado, a morte do paraibano é uma perda e deixa, de acordo com o chargista Régis Soares, o Estado “órfão de um grande chargista”.

Há dois dias, Letícia Maria da Costa, que morava com o chargista, contou que ele se sentia mal, ficava sem ar, após o jantar, mas pedia para não ser levado para o hospital porque não gostava do local. No entanto, quando foi no sábado, às 18h30, a situação se agravou. “Eu disse, papai agora você vai. Ele estava branco... Quando cheguei ao Hospital, eles me disseram que iam entubá-lo, mas nem chegou a fazer isso porque ele morreu logo. Ele sentia dores e não contava para não me preocupar porque sabia que eu o levaria para o médico”, comentou.

Em fevereiro de 2014, Luzardo Alves teve um início de infarto e passou cinco dias internado. Segundo a filha, o médico revelou que o coração dele estava maior do que o normal. “O médico disse que meu pai não tinha mais vida porque o coração estava bastante crescido. E de lá para cá, eu acordava ele de manhã para tomar o medicamento com muito calma. Meu pai era muito calmo, muito tranquilo... O sonho dele era trabalhar no Correio da Paraíba. Ele pediu uns 3 anos e ele conseguiu, graças a Deus...”, frisou. Ainda de acordo com Letícia Maria da Costa, parecia que ele sabia que iria morrer. “Ele ia para os lugares como se estivesse se despedindo das pessoas e eu perguntava o porquê”, ressaltou.

Luzardo Alves começou no mundo dos desenhos ainda criança aos 8 anos de idade. Ele desenhava com carvão e tijolo nas calçadas do bairro de Jaguaribe. O gosto era por desenhos de personagens de filmes. Saiu da Paraíba para o Rio de Janeiro, em 1960, a pedido de Assis Chateaubriand, para trabalhar na Revista Crzueiro. Também trabalhou na Revista Rádio, no Jornal dos Esportes, Jornal O Dia e na Revista Cigarra. Também fez um trabalho para uma revista americana. No entanto, antes de ir para o Rio, Luzardo Alves, que também tinha outra profissão, gravador de nomes em objetos (jóias, por exemplo), fazia as charges e vendia em sua loja que ficava na Galeria Jardim, no Centro da Capital.

O chargista amava o que fazia segundo frisou a filha. “Ele tinha feito alguns personagens bem conhecidos, o Botinha, do Botafogo, o macaco do Auto Esporte, a Bate Madame e a da garcinha da Lagoa, que ele era apaixonado. Ele estava agora fazendo o Bocão porque ele se inspirava em Boechat da TV. Ele amava desenhar. Papai era uma pessoa muito simples, porém um intelectual nato, sem muito estudo”, contou. Luzardo morava com a filha mais velha, Letícia. Ela comentou que sempre morou com os pais e após o falecimento da mãe, há 15 anos, ficou tomando conta do chargista e agora, era revelou que só saudade. “A saudade vai ser grande... Tudo eu cuidava do meu pai. Para o médico. Para os exames, medicação, alimento, as roupas, mas isso é uma coisa que Deus vai ajudando, consolando. Vai dá tudo certo, eu creio em Jesus”, ressaltou.

Amigos lamentam a perda do chargista

Amigos, humoristas e chargistas lamentaram a morte de Luzardo Alves. Um dos chargistas, que também era amigo dele, é Régis Soares. Ele contou que tomou conhecimento da morte ainda no sábado a noite. Contou que fez há 4 anos uma parceria para juntos realizar uma exposição itinerante em pontos da cidade de João Pessoa. “Juntos levamos charges minhas e dele para a Praça Ponto de Cem Reis, para a praia, o shopping. É muito triste a morte dele. Além de um grande chargista, que saiu aqui da Paraíba e conseguiu publicar trabalho no Pasquim, na Revista Cruzeiro e tem Ziraldo como cumpadre dele. O cara sair daqui da Paraíba e substituiu o criador do Amigo da Onça na Revista Cruzeiro, e teve destaque mesmo na época do Regime Militar. A tristeza é muito grande pra o humor, para o da charge. Isso é uma perca para a charge que fica órfão de um grande chargista”, revelou.

Já o humorista Cristovam Tadeu, de 55 anos, aprendeu a arte do desenho com Luzardo aos oito anos de idade. “Foi o cara que me ensinou a desenhar. O primeiro desenho que recebi eu tinha 8 anos de idade. Ele me deu um desenho do sargento Tainha, que era um personagem do Recruta Zero, feito de caneta bic numa folha de papel. E quando eu vi aquele desenho, e comecei a dizer: é possível. Ele era amigo do meu pai”, revelou, destacando que o chargista era uma pessoa bacana e dedicada. Disse ainda que conversou com ele na sexta-feira e falou da caminhada gloriosa que o chargista tinha feito. “Ele era um tio avesso, meu tio postiço. Era uma pessoa que tinha e tenho um carinho que vou guardar no coração”, revelou.

 

 

 

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