terça, 24 de novembro de 2020

Literatura
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Vida para o canto: Angela Maria e Rodrigo Faour falam sobre a biografia da cantora

Kubitschek Pinheiro / 13 de dezembro de 2015
Foto: Divulgação
840 páginas, um calhamaço. O jornalista Rodrigo Faour mergulhou em uma longa historia de vida e arteem Angela Maria, a Eterna Cantora do Brasil. Esta biografia é mais extensa que as de Dolores Duran e Cauby também assinadas por Faour.

“É porque a história da Angela é mais farta que a de todos eles. Além da vida artística absurdamente intensa, sua vida pessoal é muito rica e impressionante. Se eu quisesse inventar, não faria tão bem. Fora isso, seu sucesso nos primeiros 30 anos de carreira é tão impressionante que merecia um registro minucioso, se confunde com a própria história do Brasil”, revela o autor.

Angela conta que, quando Faour a procurou, a ideia inicial era produzir um musical. “Eu achei maravilhosa a ideia, mas aí foram acontecendo muitas coisas, as entrevistas e suas pesquisas, então terminou que o projeto do musical virou o livro”, disse ela ao CORREIO, pelo telefone, de seu apartamento em São Paulo.

Já Faour justifica a ideia : ele sentiu que uma figura tão importante, com quase 65 anos de estrada, ainda não tinha um documento importante. “E Angela é um personagem que se caísse na mão de um jornalista/crítico elitista poderia ter sua história subestimada e distorcida. Então, eu mesmo resolvi encarar”, revelou.

Quase cem pessoas foram entrevistadas. O livro não é só sobre Angela, mas a tem como fio condutor para abordar também usos e costumes, indústria cultural, indústria fonográfica, história do rádio, da TV, do cinema, detalhes da política, do esporte. “Há uma série de personagens que ajudam a contar não só a vida de Angela, mas uma fatia da nossa própria história recente, dos anos 1940 para cá”.

“Claro que eu gostei do livro, mas que fique claro: eu não gosto muito de falar de minha vida pessoal, só do meu trabalho”, resumiu Angela. “Não foi bem como eu esperava. Angela não gosta de falar das saias justas de seu passado, e, por respeito ao atual marido, não gosta de falar da vida pessoal atribulada. Fora isso, o tempo a fez uma pessoa muito desconfiada. Então, até o fim, o processo foi muito delicado”, diz Faour.

A sorte, enfatiza ele, “é que ela foi uma das mulheres mais midiáticas do país e nas centenas de entrevistas e valorosos depoimentos de outros que conviveram com ela, consegui o que precisava pro meu trabalho. Com ela fiz apenas duas, mas boas entrevistas, e tirei algumas dúvidas por telefone”.

Só para se tiver uma ideia, Emilinha Borba foi a cantora mais popular do Brasil entre fim dos 1940 e início dos 1950, seguida de perto por Marlene e Dalva de Oliveira, mas quando Angela entrou no páreo, foi um furacão, fortemente encantadora desde os anos 1950.

Dietrich quis conhecê-la

Angela Maria começou já com um disco de sucesso em 1951 (o compacto com “Não tenho você” e “Sabes mentir”). Em 1954, já era Rainha do Rádio, eleita por voto popular. E por cronistas capitaneados pela Revista do Rádio foi eleita melhor cantora de 1953, 1954, 1955 e 1956.

Para Faour, Angela fascinava pela voz e também pela beleza, carisma e simplicidade. “Ela sempre foi muito atenciosa com os fãs e, como uma mulher de origem muito humilde, soube traduzir bem a alma do povo brasileiro, optando na maioria das vezes por um repertório bem popular”, conta Rodrigo Faour. Mas por ser uma cantora fantástica também atraiu um público mais sofisticado em algumas fases. Mesmo tendo gravado um repertório que poucas vezes esteve à altura de sua voz, ela venceu por melhorar muito as músicas que cantava”.

Está registrado no livro que Louis Armstrong em 1957 achou a artista muito bonita e soltou uma cantada. “Segundo Angela, ele era meio ‘abusado’, achava que podia ter todas as mulheres, e quando veio com um papo torto pra cima dela, ela lhe deu um chega pra lá”, disse Faour. “Não quero falar sobre isso”, arrematou Angela.

Quando Marlene Dietrich chegou ao Brasil, em 1957 quis conhecer Angela Maria, já a admirava dos discos. “Foi um momento marcante em minha vida. Ela disse para todo mundo ouvir que era minha fã e isso me comoveu”, conta Angela.

Angela chegou a incentivar Milton, Elis e Djavan. “Sim, todos reconhecem sua influência decisiva em seus respectivos cantos. E podemos ver Angela em Alcione, Fafá de Belém, Simone, Bethânia, Gal, Ney Matogrosso. Enfim, Angela foi a sucessora de Dalva de Oliveira, e acabou por ser a mãe da geração de ouro da MPB lançada nos anos 1960 e 1970”.

Aos 86 anos, Angela continua. “Vou gravar um novo CD com canções de compositores novos e quero gravar um novo DVD”, fechou a cantora.

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