quarta, 19 de dezembro de 2018
Literatura
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Pôr do sol literário discute o mistério da traição de Capitu em Dom Casmurro

André Luiz Maia / 04 de outubro de 2018
Foto: Reprodução
Uma das discussões mais acaloradas que existem dentro da cultura literária brasileira reside em algo bastante humano: a traição. Há quase 120 anos, Machado de Assis lançou a provocação nas páginas de sua obra-prima Dom Casmurro: teria Capitu traído Bentinho? A resposta, é claro, não está no livro, mas as migalhas de pão deixadas pelo Bruxo do Cosme Velho suscitam debates até agora.

A confraria Sol das Letras promove mais um deles nesta quinta-feira (4), dentro da programação da 57ª edição do Pôr do Sol Literário. Diferentemente do material divulgado à imprensa, que incluía o nome do escritor Rinaldo de Fernandes na roda de conversa, apenas o escritor e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho estará presente para discutir com o professor Hermano de França Rodrigues.

O tema não faz rodeios: “Capitu: adúltera ou não”. Para quem não leu este clássico da literatura, a história de Dom Casmurro gira em torno de Bento Santiago, ou simplesmente Bentinho. A narrativa se dá sob seu ponto de vista, sem nunca termos a versão dos fatos por parte de qualquer outra personagem da trama.

Testemunhamos as lembranças de sua juventude, sua vida no seminário, quando pensava em se tornar padre, e o fascínio que teve pela jovem de “olhos de ressaca” e de “cigana oblíqua e dissimulada”. Ambientada em pleno Império, vemos a dúvida consumir Bentinho, que passa a observar obsessivamente os passos de Capitu, incendiado pelos ciúmes que tinha da bela jovem.

Mais do que discutir se Capitu traiu Bentinho, Hildeberto afirma que o que é mais interessante nesse debate é entender os aspectos da literatura machadiana. “Acho essa questão ociosa e irrelevante, se traiu ou não traiu. Acho que quem pratica a grande traição é Machado de Assis, já que todo escritor trapaceia com as palavras. Esse tipo de traição serve para descortinar aspectos da realidade que nem as pessoas comuns, cientistas ou filósofos conseguem perceber. A arte, e a literatura entra aí, tem esse poder absolutamente extraordinário ao desvender esses mistérios, embora não dê respostas definitivas, apenas portas abertas”, explica o crítico literário.

Por termos apenas o relato de Bentinho, a narrativa criada por Machado de Assis acaba provocando reações diversas, às vezes contraditórias. Por observarmos a ótica de alguém supostamente traído, parte dos leitores pode sentir compaixão ou mesmo se projetar no drama do rapaz, um sentimento comum a milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, seu ceticismo extremo e a precipitação na hora de chegar a determinadas conclusões despertam a antipatia de outro público, pondo em cheque a própria “veracidade” do relato - mesmo que estejamos falando de uma narrativa fictícia. Prova disso é o livro Amor de Capitu, escrito anos depois por Fernando Sabino, uma espécie de contra-argumentação, trazendo para o jogo a perspectiva de Capitu.

“Machado é um escritor moderno, ao construir esse tipo de narrativa no final do século XIX, coisa que Proust, Pirandello, Beckett, Kafka e outros escritores irão fazer muito tempo depois, o que Umberto Eco, grande teórico da literatura, vai chamar de obra aberta”, evidencia Hildeberto. Dentro de um formato literário tradicional, com início, desenvolvimento e conclusão, Machado se propõe a deixar vãos narrativos passíveis de interpretação por parte de seus leitores, evitando a rotina da solução de casos.

Muito por conta disso, Hildeberto reforça que a importância da obra está menos na solução do caso e mais em toda a carga imbuída na escrita. “A grandeza desse romance se dá no ensaio da psicologia masculina, feminina e na psicologia social da época, além de fazer uma conexão com a literatura mundial, com Shakespeare. O caso da traição acaba ficando em segundo plano, um fuxico”, brinca o escritor.

Programa

Além deste debate, o 57º Pôr do Sol Literário fará uma homenagem ao poeta Luiz Fernandes da Silva, falecido recentemente, com apresentação da escritora Marinalva Freire, seguida de leitura de poemas do homenageado a entrega do troféu Solito.

Em outro momento, também serão anunciados lançamentos literários, com espaço para a distribuição de autógrafos. Fora a literatura, o evento trará performance musical dos artistas Thiago Ramalho, Luíza Paiva e Mathias e destaque para as obras do artista plástico Carlos Nunes.

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