segunda, 08 de março de 2021

Literatura
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Paraibano Cristhiano Aguiar lança livro ‘Na outra margem, o Leviatã’

André Luiz Maia / 17 de julho de 2018
Foto: Divulgação
Conseguir enxergar a estranheza das coisas por trás de uma capa de normalidade pode nos levar a outros lugares. O espírito migrante, seja geográfico ou psicológico, é uma marca da obra do autor campinense Cristhiano Aguiar, que apresenta o livro de contos Na Outra Margem, o Leviatã.

Misto de novela, crônica e romance, a obra é composta por contos que acabam se entrelaçando por motivos diversos, centrados na irrupção do absurdo diante de uma situação cotidiana, gerando assim certa epifania. Na Outra Margem, o Leviatã começou a ser escrito em 2012, sendo lapidado ao longo dos anos até chegar à sua forma final.

“Eu tive a ideia inicial de um romance, mas aos poucos os contos foram sendo a melhor maneira que encontrei para apresentar esses personagens", conta o autor. O que acaba unindo figuras como uma senhora atormentada por pássaros, uma jovem militante de esquerda que tem uma epifania ao visitar uma desocupação no interior da Paraíba e um rapaz que se dispõe a mergulhar no poluído e contaminado Rio Tietê, em plena São Paulo, é a impermanência.

“Seja nesse processo de migração ou de exílio interior, os personagens têm em comum essa sensação de que não se encaixam. Tentei colocá-los em situações-limite, não necessariamente uma tragédia, mas um momento de epifania que transforma suas vidas”, explica Cristhiano Aguiar. Durante os anos de lapidação, Cristhiano recorreu a diversas fontes.

Suas leituras consistiam em autores como os argentinos Jorge Luis Borges e Juan José Saer, José Saramago, contos de horror de H.P. Lovecraft e Moby Dick, de Herman Melville. No entanto, duas mulheres são essenciais para o alicerce de Na Outra Margem, o Leviatã: Clarice Lispector e Hilda Hilst. “Há uma estranheza e um olhar para si muito forte na obra dessas duas, algo que eu procuro fazer nos contos”, reflete.

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, Cristhiano lida diariamente com a obra de Machado de Assis, chegando a lecionar disciplinas sobre o autor. Sua forma de construção textual, especialmente no campo dos contos, foi uma escola para o escritor.

“Machado tem uma concisão, a capacidade de criar todo um universo em um espaço limitado. É algo que me interessa muito. Também o uso como referência para algumas soluções narrativas”, salienta Cristhiano. Inicialmente buscando um romance, ele acabou se encontrando nessa linguagem híbrida. “Acabou demorando um tempo, mas no início de 2017 eu acho que consegui fazer isso tudo funcionar e então publicar o livro”, opina.

Uma trajetória nômade

O sentimento de impermanência dos personagens de Na Outra Margem, o Leviatã talvez reflita um pouco da trajetória de seu próprio criador. Nascido em Campina Grande, sua incursão na literatura começou cedo, não apenas como leitor.

Aos 10 anos, escreveu um pequeno conto, que foi publicado em um jornal. Esse início precoce lhe renderia, anos depois, a inclusão de seu nome na lista dos 20 melhores autores jovens do Brasil, de acordo com a Granta, revista literária britânica Nesse meio tempo, já residiu em cidades como Recife, Olinda e São Paulo, além de Berlim, na Alemanha.

A carreira acadêmica acabou levando Cristhiano a cruzar novamente as fronteiras nacionais, atuando como professor pesquisador na Universidade de Berkeley, no estado da Califórnia, um dos prestigiados centros de pesquisa dos Estados Unidos. De volta a São Paulo, ele se divide entre o trabalho de professor na Mackenzie e a publicação de suas obras de ficção, em períodos espaçados. Venceu o renomado prêmio Osman Lins de contos, foi editor na revista de arte e cultura pop Eita e da publicação literária Vacatussa.

O autor é reticente e prefere evitar certa romantização. Contudo, admite que esse percurso transparece em sua forma de enxergar o mundo. “Há realmente um ímpeto de sair, de mudar, mas foram coisas circunstanciais. O que realmente acredito que acabe sendo retratado nas personagens do meu livro é essa dificuldade de perceber um ‘ponto de chegada’ Nunca estou totalmente em casa, em nenhum lugar que eu esteja, porque parte de mim está em todos esses lugares que vivi”, analisa Cristhiano.

Sem pressa de lançar livros, o escritor permanece navegando por meio das palavras, com olhar analítico sobre o ambiente que o rodeia.

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