terça, 19 de março de 2019
Literatura
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Orlando Tejo marcou geração com biografia-ensaio de Zé Limeira

André Luiz Maia / 03 de julho de 2018
Foto: Reprodução
O paraibano Orlando Tejo é conhecido por ser autor do livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, que apresentou a um público maior uma lenda da cultura popular. O trabalho do jornalista e poeta natural de Campina Grande é celebrado ao mesmo tempo em que as manifestações de saudade se avolumam nas redes sociais, devido à sua morte, domingo, aos 83 anos.

Sua obra mais conhecida é a que conta a história de Zé Limeira, mas ao longo da vida ele apresentou livros como Conceição 63, Impasse e Soneto dos Dedos que Falam, obras que revelam seu trabalho na poesia. Sua história se concentra especialmente nas cidades de Campina Grande e Recife, onde fez boa parte de sua carreira.

O interesse pela cultura popular veio cedo, aos 14 anos de idade. “Ele aprendeu a fazer sonetos com o cantador de viola José Alves Sobrinho. Era ele quem observava seus primeiros trabalhos”, conta o jornalista e poeta Astier Basílio, um de seus grandes amigos. A proximidade com Tejo fez com que Astier se interessasse em estudar sobre a vida e a obra de Orlando.

Orlando começa a trabalhar com o jornalismo durante a década de 1950. Antes disso, sua vida já tinha relação com os periódicos, especialmente o CORREIO. “Algumas de suas primeiras publicações de soneto foram nas páginas do Correio, antes mesmo de escrever para o jornalismo. Nessa área, ele começou primeiro no rádio, participando de programas de rádio, de cunho político”, relembra Astier.

Mesmo enquanto jornalista, sua criatividade aflorava. Astier costuma classificá-lo como um exemplo do jornalismo romântico, da segunda metade do século XX. “No documentário O Homem que Viu Zé Limeira, Vladimir Carvalho conta que uma vez o jornal não iria sair por falta de notícias e Orlando inventou o jornal todo. Ele tinha essa capacidade, era uma pessoa muito brincalhona. Ele já embaralhava as fronteiras da ficção e da realidade desde a época do jornalismo”, completa o poeta.

Por conta de seus posicionamentos políticos, as colunas nos jornais de João Pessoa e Recife tiveram que sair sem sua assinatura durante os anos de chumbo da ditadura militar. Durante este período, começou a pesquisar sobre Zé Limeira, uma figura que lhe fascinava. Ele costumava contar que seu primeiro contato com Zé foi aos 15 anos, quando ouviu por acaso no meio da rua uma voz pouco comum. Mais tarde, viria a conhecer mais do poeta porr intermédio de um parceiro profissional, José Rômulo Mesquita Martins, da Rádio Universitária.

Híbrido

Ao ler Zé Limeira, o Poeta do Absurdo, uma característica que salta aos olhos é a característica híbrida da obra. “O livro de Tejo é original porque pela primeira vez, ao falar de cultura popular, ele se concentra em um único personagem. Faz uma espécie de biografia, mas ao mesmo tempo é um ensaio, com uma teorização sobre o que é folclore e a cantoria, mas também é uma biografia. Os versos de Zé Limeira são emoldurados por casos da vida dele”, comenta o escritor.

A figura de Tejo é curiosa porque sua própria atuação no meio artístico é dupla, híbrida. Ao mesmo tempo em que se aproximava cada vez mais da cultura popular, participando de cantorias, era um integrantes da elite intelectual. Formado em Direito, filho de juiz e poeta erudito, participou de uma resistência ao modernismo, não se conformando com uma poesia sem métrica ou rima.

Exemplo desse trânsito livre é sua participação, em Campina Grande, do Grêmio Literário Machado de Assis, movimento que que reuniu intelectuais de Campina Grande como Ronaldo Cunha Lima, Edvaldo Perico, entre outros. “Zé Limeira, o Poeta do Absurdo apresentou ao universo de letrados um personagem da realidade, que pegou um personagem já folclórico por si só, do Brasil Real, e o introduziu ao Brasil oficial”, explica Astier Basílio.

Como consequência direta desse movimento iniciado por Tejo, nas décadas seguintes, vieram artistas como Siba e Cabruêra, que prestaram homenagens a Zé Limeira. “Orlando Tejo é responsável pelo despertar de várias gerações de artistas e poetas, fazendo com que eles voltassem o olhar para a cultura do Nordeste”, completa o poeta Jessier Quirino.

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