terça, 26 de janeiro de 2021

Literatura
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Mulherio das Letras começa nesta quinta-feira em João Pessoa

André Luiz Maia / 10 de outubro de 2017
Foto: Rafael Passos
Em 2016, em uma conversa entre escritoras na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, levantou-se a questão: por que há tão poucas escritoras publicando seus livros? Cada uma conhecia uma porção de outras artistas da palavra em suas respectivas cidades, mas a dúvida permanecia. Motivadas por esta interrogação, elas criaram o movimento intitulado Mulherio das Letras, uma janela para a produção dessa literatura feita por mulheres.

Uma dessas escritoras é bem conhecida da gente: Maria Valéria Rezende. Ela é uma das organizadoras desse movimento que começou de maneira muito mais simples do que poderemos conferir em João Pessoa a partir da próxima quinta. Espera-se um movimento de cerca de 500 mulheres, entre escritoras, editoras, ilustradoras e demais profissionais da palavra.

Para conseguir viabilizar o evento, o movimento realiza um crowdfunding que está aberto até esta terça (veja os detalhes em https://benfeitoria.com/mulheriodasletras).

Em poucos meses, o grupo conseguiu arregimentar quase seis mil mulheres em um grupo nas redes sociais. "Por incrível que pareça, o Facebook se mostrou uma ferramenta pouco eficiente para organizar um evento desse tamanho, mas foi como conseguimos nos articular", pontua a escritora.

A abertura, na Fundação Casa de José Américo, conta com uma palestra com a pesquisadora Algemira de Macêdo Mendes e as escritoras Lenita Estrela de Sá e Conceição Evaristo, conversando sobre o legado de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense negra, considerada a primeira romancista brasileira ao públicar Úrsula, em 1859.

De lá para cá, apesar de termos grandes nomes femininos na história de nossa literatura, a situação não parece estar tão melhor para as escritoras, especialmente as que estão longe dos grandes centros culturais e econômicos do país.

"As escritoras estão publicando em pequenas editoras regionais. Se você olha o catálogo de autores brasileiros de grandes editoras, é uma minoria de mulher. Eles ficam reeditando Clarice Lispector eternamente, Lygia Fagundes Telles eternamente, Rachel de Queiroz eternamente... As novas escritoras encontram muita dificuldade em se inserir dentro desse mercado”, pontua Maria Valéria. Ela, por sinal, é uma dessas exceções, mas ainda assim levou bastante tempo para a autora de livros como Quarenta Dias e O Voo da Guará Vermelha viesse a ter reconhecimento por sua escrita.

Durante o evento, que vai até o próximo domingo em diversos locais da cidade, a escritora Débora Gil Pantaleão irá lançar sua editora própria, a Escaleras, uma forma de organizar suas próprias obras e a de outras escritoras que se interessam em formalizar o processo de publicação.

"O trabalho de Débora é ótimo porque não se trata apenas de publicar o livro pura e simplesmente. Tem muitas editoras que têm o título mas que, na verdade, são quase intermediárias para gráficas. O trabalho de Débora na Escaleras é realmente o aconselhamento, a conversa com os escritores, o trabalho de editor-curador", pontua Maria Valéria.

Diferente de outros eventos, a ideia do Mulherio das Letras é funcionar como um movimento, o que, pelo visto, já está acontecendo. "Ainda não realizamos o primeiro encontro e já estamos recebendo propostas de realizar o Mulherio em outras cidades. A ideia é essa, circular. Não há proprietárias do movimento", completa a escritora.

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