quarta, 14 de novembro de 2018
Literatura
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Meu primeiro livro: Correio questionou alguns autores sobre o tema

André Luiz Maia / 11 de setembro de 2016
Foto: Divulgação
A primeira obra de um artista carrega consigo as marcas de seu tempo. Na literatura, mais especificamente, a falta de maturidade na linguagem, na narrativa ou mesmo da visão do mundo do próprio escritor podem levá-lo a colocar essas publicações ao status de obra non grata.

O CORREIO foi atrás de alguns autores para questioná-los a respeito dessa relação. Livro do Ano no Prêmio Jabuti do ano passado com Quarenta Dias, Maria Valéria Rezende se sente tranquila ao falar de Vasto Mundo (2001), sua estreia no mundo literário. Isso se dá, principalmente, por não ter sido seu primeiro livro escrito e por não saber dizer exatamente qual teria sido.

“Eu escrevi muita coisa antes de Vasto Mundo, antes mesmo de pensar em ser uma escritora. Por causa da minha militância política e o trabalho que desenvolvia, fiz muitos livros sobre história, sociologia, como A História da Classe Operária no Brasil, a maioria sem meu nome. Como eu escrevia o livro para trabalhadores, havia um quê narrativo da literatura, para trazer a história de um jeito mais atrativo”, lembra.

Mas quando pensa em sua primeira publicação, não há incômodo. “O livro veio como uma compilação de textos que eu já havia escrito e que estavam guardados, foi algo que eu maturei por muito tempo. Ano passado eu relancei Vasto Mundo e não mudei uma vírgula, pelo contrário”, explica Valéria. Ela decidiu acrescentar novos contos à edição mais recente do livro, por ter escrito textos que ela acredita serem coerentes com o universo que ela criou com o livro.

Mas se perguntarmos ao poeta André Ricardo Aguiar sobre seu primeiro livro, ele responderá que é A Flor em Construção (1992), publicado pela editora Ideia. Ele prefere não colocar na conta dois livros publicados antes de maneira independente: Espelho do Corpo e Desabafo da Razão, este último de1989.

“Eu considero livro a partir de editora...”, desconversa. “Aquelas edições de autor, eu matei. Direito meu nem falar deles (risos)! Aliás, se for assim, meu primeiro livro são folhas de papel almaço dobradas que fiz aos 10 anos, chamado O Macaquinho Feliz ao Redor do Mundo”, brinca.

A respeito de sua estreia literária, ele faz uma analogia como a de um filho que ainda estava dando os primeiros passos desajeitados, mas que não atingiu a maturidade. “Aponto que tem coisas boas em potencial, mas nunca o reeditaria”, completa. André é autor de livros infantis como O Rato que Roeu o Rei (2007) e Chá de Sumiço e outros poemas assombrados (2013) e de poemas como A Idade das Chuvas (2012).

Marília Arnaud é ainda mais radical. Autora dos romances Liturgia do Fim (2016) e Suíte de Silêncios (2013) e algumas coletâneas de contos, ela desconsidera totalmente a publicação independente de Sentimento Marginal, de 1987. “Considero o meu primeiro livro um acidente de percurso. Há coisas boas, como alguns contos premiados. E outros textos que são subliteratura, embora neles já existisse a semente da minha escritura atual. Eu era muito jovem e tinha a ilusão de que só seria de fato uma escritora se tivesse um livro publicado”.

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