quinta, 22 de agosto de 2019
Literatura
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Marcus Veras lança romance que tem como cenário o regime militar

Kubitschek Pinheiro / 01 de fevereiro de 2019
Foto: André Arruda
A TV Carioca, fictícia emissora do Rio de Janeiro é cenário do livro Os Últimos Dias em Preto e Branco – Um Romance nos Bastidores da TV em 1970, do jornalista Marcus Veras. É um Rio imaginário, mas com alavancas de uma realidade nua e crua com a presença da ditadura militar. Um programa de calouros faz o canal resistir à concorrência da TV Tupi, da Rede Globo e de tantas outras.

“Mas essa TV traz no DNA duas emissoras cariocas que foram muito importantes para a vida da cidade: a TV Continental e a TV Rio. Eu quis prestar uma homenagem às emissoras locais, que acabaram sendo engolidas pelas redes que hoje dominam o espaço televisivo no Brasil”, conta ao CORREIO, pelo telefone. “O avanço das telecomunicações era inevitável, mas com isso houve uma padronização da linguagem que encerrou o ciclo das emissoras locais, voltadas para as suas cidades”.

A ideia logo parece um pouco nostálgica e festeja antecipadamente os 70 anos da TV brasileira, que ocorrerá em 2020. “Um pouco de nostalgia e a constatação de que a televisão, prestes a completar 70 anos no Brasil,tem uma presença ínfima na nossa literatura. Até parece que o brasileiro não gosta de TV”, diz.

Já existem dois romances tratam do tema: A Glória e Seu Cortejos de Horrores, de Fernanda Torres, e Aquiles: Entre Estrelas, do Marcílio Moraes. “Todos ótimos. Mas ainda é muito pouco”, afirma Marcus.

Ao todo, lembra Marcus, foi um ano de pesquisa, incluindo algumas entrevistas, e dois anos escrevendo. “Como eu comecei muito cedo a trabalhar em TV — com 21 anos eu era assistente de produção dos Concertos para a Juventude, da TV Globo —, dei o nome de colegas de trabalho a alguns personagens como forma de lembrar que TV é, antes de tudo, um trabalho de equipe: dos engenheiros eletrônicos mais anônimos aos atores mais famosos, passando por uma extensa escala de profissionais”.

São diversos personagens no seu livro: um diretor de programas decidido a tomar todo o gim do mundo, o locutor de rádio que não arreda o pé para refazer a carreira, a aspirante a atriz que brigou com a família de classe alta para ser estrela da TV e o coronel do exército mandado por Brasília para criar uma atração que exaltasse os valores da “sagrada família brasileira”. Personagens é o que não sobra, não é?

“Sim. De Flávio Cavalcanti a Blota Junior, Manuel da Nóbrega, Carequinha. Foi ótimo reunir estes personagens, que me proporcionaram uma adolescência muito divertida”.

Outros nomes como Mister Eco, Marisa Raja, Cesar Ladeira aprontam no romance de Marcos. Ele conta: “Mister Eco e Marisa Raja Gabaglia faziam parte do corpo de jurados do Programa Flavio Cavalcanti. Já Cesar Ladeira foi a maior voz do rádio brasileiro entre 1940 e 1950, depois de ter sido a voz da Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo. Casado com a atriz e vedete Renata Fronzi, foi o primeiro brasileiro a trazer a ideia da TV para nosso país, ao voltar de uma viagem aos Estados Unidos em 1938. Pessoalmente, devo muito a ele, porque me inspirou e me ajudou a me tornar um roteirista quando tinha só 17 anos”.

A vivência do autor em três televisões (trabalhou na Globo, Manchete e TVE — hoje TV Brasil) foi fundamental para que ele pudesse navegar com segurança pelos vários mundos que compõem a galáxia TV. Mas os leitores se inquietaram para saber o quem é quem no livro de Marcos Veras.

“Foram muitos. Vários leitores que trabalham ou trabalharam em TV me mandaram mensagens perguntando se o personagem A ou B eram fulano ou sicrano. Acho que um dos fatores que o tornaram um romance muito divertido: é exatamente deixar que os leitores imaginem quem são as pessoas que por ali passaram. Eu não confirmo nem desminto – cada qual que coloque ali sua aposta”, afirma.

O autor participou de coletâneas antes de partir para formatos maiores. Sua primeira tentativa foi O Homem que o Brasil Devorou, que conta a história de Gabriel Soares de Souza, o português que em pleno século XVI fez uma maravilhosa viagem pelo litoral brasileiro. O segundo foi o Só para Homens. Em seguida Qualquer Maneira de Amar, que já se passa na ditadura, e agora Os Últimos Dias em Preto e Branco. “Para 2019, estou com um novo livro de contos pronto, O Perpétuo Devenir”. E já pesquisa um terceiro volume que também vai se passar nos tempos da ditadura, e cujo cenário específico será o mundo dos grandes festivais de música entre 1966 e 1972.

O autor vem de um Rio de Janeiro mais “maneiro”. “Eu tive a sorte de viver em um Rio de Janeiro ameno, amigável, tranquilo. E a transformação que a cidade sofreu nos últimos 40 anos trouxe a violência para onde só havia beleza.

Os sucessivos governos estaduais que aqui tivemos pouco se importaram com o crescimento das comunidades, e ao não provê-las com os serviços básicos – esgoto, transporte, saúde e educação – deixaram nas mãos dos traficantes e milicianos o poder sobre a vida e a morte de milhões de cariocas. Sinceramente, não sei como vão resolver isso, se é que vão”, lamenta.

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