terça, 02 de março de 2021

Literatura
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Livro investiga sociedade brasileira no período da Lei Áurea

André Luiz Maia / 04 de julho de 2017
Foto: Divulgação
Democracia racial. Políticas afirmativas. Cotas. Dívida histórica. Termos como esse são recorrentes na discussão recente a respeito dos problemas enfrentados pelos negros no Brasil. Mas como eram os discursos dos veículos de imprensa, empresários e políticos antes e depois da lei que oficialmente deu alforria às pessoas escravizadas, em 13 de maio de 1888? Comente no fim da matéria.

Com base nessa curiosidade, o jornalista e historiador Juremir Machado fez uma pesquisa extensa, buscando jornais, documentos e cartas da época para revelar o processo que libertou milhares de pessoas em um país de dimensão continental, mas que não previu nenhuma política de acolhimento nem de inclusão dos negros na sociedade.

O resultado dos seus cinco anos de pesquisa resultaram no livro Raízes do conservadorismo brasileiro. O compêndio mostra como os discursos e estratégias dos atores sociais da época são semelhantes ao conservadorismo da sociedade brasileira desde então.

A repressão da polícia ao movimento abolicionista, a justificativa estapafúrdia de que a abolição acabaria com a economia do país, os pedidos infundados de indenização por proprietários rurais e a disseminação de preconceitos contra os negros não foram suficientes para barrar o movimento abolicionista.

“A abolição foi uma conquista dos negros e dos seus aliados que se deu em três frentes: a rua, o parlamento e a imprensa. (...) A luta dos homens e das mulheres foi decisiva para desmontar um discurso de naturalização da escravidão”, ressalta o autor, em entrevista ao blog da editora.

O livro traz à tona o papel de abolicionistas menos conhecidos e elogia intelectuais abolicionistas famosos como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa. Ao transcrever os discursos dos políticos, mostra como o romancista José de Alencar, que votou contra a Lei do Ventre Livre, era um “conservador renhido, escravocrata convicto, sempre pronto a sofismar em nome da sua crença”.

 

Num dos trechos mais chocantes, reproduz trechos da “Lenda da criação do negro”, ficção publicada num jornal do Espírito Santo cheia de clichês racistas, que ainda persistem no imaginário brasileiro racista. “Raízes do conservadorismo brasileiro” mostra que ainda estamos longe de reconhecer e pagar a dívida com a escravidão. “Nesse sentido, ainda somos os mesmos e vivemos como no século XIX”, conclui o autor.

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