sábado, 20 de julho de 2019
Literatura
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Literatura de Cordel é reconhecida como patrimônio cultural imaterial

André Luiz Maia / 21 de setembro de 2018
Foto: Divulgação
Emblemática como uma expressão cultural do povo, a literatura de cordel é, enfim, reconhecida como um Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), finalizando um processo que começou há cerca de uma década.

A decisão reconhece a importância de um produto cultural cuja cadeia produtiva inclui poetas, declamadores, editores, ilustradores, desenhistas, artistas plásticos, xilogravadores e folheteiros.

O artista Beto Brito, músico e cordelista, vê com entusiasmo esse tipo de reconhecimento. “Sem dúvida alguma essa decisão colabora para o fortalecimento da cultura do cordel. Acredito que isso, inclusive, contribui para que o cordel seja adotado pelas escolas como conteúdo didático. Isso já acontece em algumas escolas, mas não de maneira convencional. Com essa decisão, eu acredito que uma porta é aberta para que essa literatura seja reconhecida como merece”, ressalta o artista.

No comunicado oficial do instituto, é destacada a presença do cordel em todo o território nacional, como um gênero popular. Quem reforça essa característica é o professor, poeta e pesquisador Aderaldo Luciano, doutor e mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em sua vida dedicada ao estudo do cordel, ele evidencia essa onipresença. “Hoje, se você for ao Pará, encontrará uma estrutura de escritores e toda uma cadeia produtiva, contando inclusive com uma academia dedicada ao cordel. A mesma coisa pode ser vista no extremo oposto do país, no Rio Grande do Sul. Não dá mais para dizer que o cordel é um elemento da cultura nordestina, mas sim da cultura popular brasileira”, ressalta.

O poeta e jornalista Astier Basílio traz ressalvas em relação à decisão, embora concorde com a importância do reconhecimento. “Se essa ação não vier acompanhada de outras que possibilitem, por exemplo, formação de leitores, abertura e introdução da literaruta de cordel em ambientes de formação como as universidades, esse reconhecimento fica apenas na categoria do simbólico”, pondera.

O alerta se estende com outra ressalva, por parte de Beto Brito. “Os cordelistas precisam perceber que é preciso ter mais cuidado com a estética, com os detalhes e com a integração com a educação. É preciso de uma movimentação de toda a classe. Agora é o momento”, conclama.

Histórico

O cordel foi inserido na cultura brasileira ao final do século XIX. O nome vem do método de exposição dos livros, pendurados em cordas e barbantes. O gênero resultou da conexão entre as tradições orais e escritas presentes na formação social brasileira e carrega vínculos com as culturas africana, indígena e europeia e árabe.

Considerado o pai do gênero, o paraibano Leandro Gomes de Barros fez uma costura com a cultura da oralidade, a poesia declamada nos mercados públicos e algumas histórias trazidas por colonizadores portugueses.

Paa Aderaldo Luciano, é importante desmistificar algumas informações que cercam o gênero. “O cordel não nasce na Paraíba e também não se origina no Sertão. O criador Leandro Gomes de Barros nasce em Pombal, mas o gênero foi gestado no litoral, em Recife, no final do século XIX”, informa.

No início, ainda de acordo com Aderaldo, o cordel era impresso em gráficas. A estética mais rústica só surge na década de 1930, dez anos após Barros ter morrido, com a escassez dos insumos para impressão por conta da crise de 1929. Neste momento, a xilogravura aparece em cena, outro elemento icônico do gênero.

Depois deste período, começou a se popularizar entre o povo sertanejo, especialmente nas camadas mais pobres. “O cordel teve um papel fundamental para a alfabetização de faixas rurais do Nordeste e, além de entretenimento, também era uma ferramenta de difusão de informação em uma época em que a tecnologia era escassa”, complementa o poeta Astier Basílio.

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