quarta, 17 de outubro de 2018
Literatura
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Linaldo Guedes lança ‘O Nirvana do Eu’, neste sábado

Audaci Junior / 23 de março de 2018
Foto: Assuero lima
Os fractais formados pelas palavras de Augusto dos Anjos (1884-1914) apontam para inúmeras e complexas interpretações e características do poeta paraibano, até mesmo para um amante da obra do paraibano, como o conterrâneo Linaldo Guedes.

Uma dessas peculiares perspectivas – envolvendo a doutrina budista – é descortinada pelo escritor no livro O Nirvana e Eu – Os Diálogos entre a Poesia de Augusto dos Anjos e a Doutrina Budista (Ideia, 130 páginas, R$ 30), que será lançado amanhã, a partir das 10h, na Livraria do Luiz, localizada na Galeria Augusto dos Anjos, no Centro de João Pessoa.

De acordo com o autor, tudo começou com uma sugestão de um professor universitário sobre um tema de mestrado para o próprio Linaldo: explorar essa temática do budismo nos versos do poeta do Eu.

“Percebi na minha pesquisa que o budismo é pautado no sofrimento”, conta Linaldo Guedes. “E a poesia de Augusto dos Anjos filosoficamente é também pautada no sofrimento. No budismo tudo acaba, inclusive a alegria”.

O autor frisa que em momento algum ele teve a ousadia de dizer que Augusto dos Anjos era budista, pois o paraibano era cristão de formação, chegando a fazer todos os rituais e passos da igreja católica. “Isso não quer dizer que ele tenha usado as doutrinas budistas apenas como um recurso literário, mas também como filosofia”, aponta Linaldo.

O pensador e filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi um dos que influenciaram Augusto dos Anjos, segundo o escritor e poeta. “Ele trouxe o budismo na filosofia para o Ocidente”, explica. “O Mundo como Vontade e Representação é a sua grande obra. Segundo a crítica, Augusto foi influenciado por Schopenhauer principalmente pelo pessimismo”.

O livro é dividido em três partes: a primeira consiste na vida e obra do “Paraibano do Século”, contextualizando de forma mais histórica e conceitual características como a religiosidade do escritor; a segunda analisa os textos acadêmicos que foram publicados sobre o assunto, mostrando a influência de nomes como Schopenhauer e o budismo nos versos e estrofes; e, por fim, “a cereja do bolo”, segundo Guedes, é destrinchado os mais de 50 poemas sob à luz do budismo.

O prefácio é assinado por Maria Lúcia Abaurre, professora de Ciências da Religião da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e orientadora do autor na dissertação.

“Quem é poeta – como eu sou – sabe que o poema que abre qualquer coletânea é como se fosse uma espécie de ‘carta de apresentação’”, concatena Linaldo. “E ‘Monólogo da sombra’ é ligado diretamente à filosofia budista, estrofe a estrofe”.

No longo poema, existe a passagem: ‘No horror de sua anômala nevrose, / Toda a sensualidade da simbiose, / Uivando, à noite, em lúbricos arroubos, / Corno no babilônico sansara, / Lembra a fome incoercível que escancara / A mucosa carnívora dos lobos’.

Segundo Linaldo Guedes, o termo sânscrito e pali presente no fragmento, ‘sansara’, é o renascimento no budismo – refere-se ao conceito de nascimento, velhice, decrepitude e morte, no qual todos os seres no universo participam e do qual só se pode escapar através da iluminação.

Outra passagem no mesmo poema fala sobre “O metafisicismo de Abidarma”, que nada mais é que o terceiro cânone das escrituras budistas, no qual se relacionam as obras que tratam da filosofia dogmática ou da metafísica.

Mudança. Linaldo Guedes confessa que leu apenas um livro sobre o budismo quando mais jovem, mas nunca se interessou sobre a doutrina até então.

“Conhecia muito pouco mesmo. Quando comecei a pesquisa para o mestrado, soube que o budismo mudou a minha vida, a forma como enxergo o mundo”, conta. “Parece que é algo bem clichê, mas é verdade”.

No lançamento, O Nirvana e Eu será apresentado pela jornalista paraibana Thamara Duarte, que já foi praticante do budismo.

“Augusto dos Anjos é um dos autores do Brasil que tem uma das maiores fortunas críticas. Sua obra é vista pelos mais diversos ângulos”, exalta. “Quanto mais se explora, mais se encontra”, complementa Linaldo.

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