sábado, 08 de maio de 2021

Literatura
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Confira a coluna desta semana do professor João Trindade

João Trindade / 02 de dezembro de 2018
Foto: Reprodução
“Bolei” de rir ao ler, há algum tempo, a seguinte matéria no “Diário de Pernambuco”:

“Já ouviu falar em ‘sofrência’? Conheça o pernambucano criador do personagem (sic).

Termo nascido dos versos de dor de cotovelo do cantor Pablo foi cunhado por pernambucano febre de humor nas redes locais Fabinho Sofrência.”

E a matéria continua:

“(...) a voz arrastada, quase desesperada dos trechos à base da dor de cotovelo (...) deu margem à criação de um novo termo (sic) para se referir a um momento clímax da tristeza: a sofrência. A palavra virou selo, autentificado (sic), de sofrimento em incontáveis vídeos e áudios espalhados na Internet, nas redes sociais e, principalmente, no aplicativo dos smartphones WhatsApp.”

O pior é que o autor da matéria achou pouco e qualificou a “invenção” de neologismo.

Transcrevamos:

“O neologismo (...) passeia entre aquele que foi traído ou teve um amor não correspondido, ou seja, é uma variação da famosa ‘dor de cotovelo’ – tão bem sedimentada no imaginário nordestino pelas letras de brega, em especial com o rei Reginaldo Rossi.”

O VERDADEIRO AUTOR DE SOFRÊNCIA

Dói constatar, mais uma vez, a ignorância de um repórter da nova geração. Não é que todos sejam assim, mas infelizmente, é a maioria. Não pesquisam e são dotados de uma prepotência fora do comum.

O autor da matéria demonstra um total desconhecimento da cultura e, sobretudo, da Música Popular Brasileira.

Em 1968, num dos “Festivais da Canção” (Bienal do Samba), Billy Blanco (foto) apresentou, na voz de Jair Rodrigues, o “Canto Chorado”, letra (e música) em que, ousadamente, lançava o neologismo sofrência:

 

“Só mesmo a palavra sofrência

Que em dicionário não tem

Mistura de dor, paciência

Que é riso e que é canto também

Define Nordeste que canta

O canto chorado da vida

Pegando no susto, chuva tanta

Errou de lugar na caída.”

Observe o significado, referido pelo próprio autor:

Sofrência = mistura de dor e paciência.

E acrescenta:

“Define [a palavra sofrência] Nordeste que canta

O canto chorado da vida (...)”

Ou seja:

O sujeito “queima as pestanas” para ser Billy Blanco; cria um neologismo, para um Pablo qualquer da vida, ou um tal de Fabinho Sofrência usurpar a ideia.

Mas o leitor arguto ou, sobretudo, o fã desse tal de Pablo e companheiro poderiam objetar:

- E por que “sofrência” de Billy Blanco é neologismo e o de Pablo, não?

Por um motivo muito simples: Há critérios para a criação de neologismos. Não é uma simples questão “criar palavras”.

Observe que em “Canto Chorado”, num processo metalinguístico (talvez já adivinhando que o público iria estranhar a palavra sofrência), Billy Blanco explica:

“Nem mesmo a palavra sofrência

Que em dicionário não tem

Mistura de dor paciência (....).”

Observe-se que o autor se vale de duas palavras na língua para criar uma nova; o que caracterizou o neologismo. Neologismo é qualquer palavra nova criada por um autor que acrescente, estilisticamente, significado lógico ao léxico.

Diferentemente do “procedimento criativo” de Pablo, ou de “Fabinho Sofrência”, que só fez trocar a palavra sofrimento por sofrência. Isso não é, evidentemente, neologismo; não há criação. Some-se a isso a apropriação da ideia alheia, perpetrada pelo “criador” ou “criadores”.

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