domingo, 21 de julho de 2019
Literatura
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Bráulio Tavares e Jessier Quirino lançam livro de rimas em respostas

André Luiz Maia / 14 de dezembro de 2018
Foto: Divulgação
Braulio Tavares e Jessier Quirino são os protagonistas de uma batalha épica. Antes que comecem a disparar as fake news pela internet sobre esta cizânia entre artistas paraibanos, calma: trata-se de uma “briga” poética, que começa nos anos 1980 e desemboca na publicação do livro-folheto Galos de Campina, que será lançado hoje na Rainha da Borborema e amanhã em João Pessoa.

Tudo começa com uma música que o poeta, letrista, compositor e dramaturgo campinense Braulio Tavares escreveu para a peça Trupizupe, o Raio da Silibrina, intitulada “Meu nome é Trupizupe”. “É no estilo daquelas músicas de cantadores de viola que contam vantagens, uma música de auto-glorificação", explica Braulio.

O valente Trupizupe deixa clara sua valentia ao entoar versos como: “Sou bote da cobra caninana, sou dentada de onça enraivecida, sou granada que solta um estampido que se escuta por mais de uma semana”. Os versos, como o também poeta Jessier Quirino define, viraram coqueluche. “Havia uma efervescência grande de poesia popular em Campina Grande nos anos 1980. Todo mundo que frequentava bar sabia”, relembra.

Ao longo do tempo, Jessier, inspirado pelos versos de Braulio, começou a escrever uma espécie de resposta a Trupizupe, resultando em Rasga Rabo, o Bagunçador de Bagunça, publicado em 1996 no livro Paisagem de Interior, publicação de Quirino pelas Edições Bagaço.

O poema de Braulio, explica Jessier, é no estilo martelo agalopado, que usualmente é utilizado pelos repentistas em desafios e duelos do gênero. “Em um determinado momento eu falo: ‘Trupizupe, oia, tu num me assusta

com a fama da tua valentia

porque esta macheza é freguesia

e até nem me parece tão robusta. Uma boa palmada não me custa, pois no fundo eu te acho delicado. Se tu és um valente escolado, eu quebrei no cacete a tua escola, o teu mestre saiu de padiola e teu supervisor invertebrado’. A briga já estava declarada a partir daí!”, brinca.

Os dois poetas já conheciam os trabalhos um do outro, mas ainda não haviam se conhecido pessoalmente. Isso aconteceria alguns anos depois, já em João Pessoa. Em reuniões informais com amigos, eles apresentavam esses versos de maneira combinada, no melhor estilo de batalhas de repentistas. Quem começou a observar aquilo com curiosidade e interesse foi o cordelista Kydelmir Dantas, amigo de Braulio e Jessier. Daí veio o clique: era hora de reunir isso em um lugar só.

Em 2007, nasce o folheto A Peleja do Raio da Silibrina com o Relampo da Palavra, assinado pelo pseudônimo de Kydelmir, Antôi Dedé. O cordelista criou uma história com base nos dois poemas, de que havia acontecido um embate real entre os dois poetas, se tornando assim um editor e também um terceiro autor desta história. “Lembro que ele nos pediu para escrever mais algumas estrofes por conta da formatação do cordel”, afirma Jessier Quirino.

Como é típico das publicações de cordel, um número limitado de encadernados foi produzido, que acabaram sendo distribuídos pelos três e logo se esgotando. Mesmo assim, o público que consumia os versos deles continuavam solicitando, surgindo assim a ideia de publicar esta versão que chega hoje às mãos dos pessoenses. Inclusive, esta nova edição traz um fac-símile da edição original, além de contar brevemente a história apresentada por esta reportagem.

Mas por que o título diferente? Quem explica a história é Jessier Quirino. "O grande estalo veio em uma foto que tiramos juntos em Recife. A posição em que estávamos remetia a uma rinha de galos, como se estivéssemos discutindo, um de frente para o outro. Quando vi aquela foto, veio o título Galos de Campina. Mandei pra Braulio e disse que esse era o mote”, revela.

A ilustração da capa é da artista paraibana Minna Miná. Jessier Quirino conheceu seu trabalho ao visitar feiras de economia criativa em João Pessoa. “O trabalho dela é lindo. Minna tem um traço muito peculiar, que é só dela. Além da ilustração da capa, ela também colabora com o projeto gráfico do livro, criando algumas manchas que acompanham os versos e conduzem a peleja”, elogia o poeta.

Arte valorizada

A publicação desta nova versão de A Peleja do Raio da Silibrina com o Relampo da Palavra é um bom gancho para falar de uma conquista importante para o cordel alcançada este ano. Agora, a literatura de cordel é um Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, dando o devido reconhecendo à poesia popular.

Para Braulio Tavares, o título vem em boa hora. “A gente está vivendo um momento muito bom, tanto para a cantoria de viola quanto para a literatura de cordel. Muitas gerações novas de poetas surgindo. Apesar do mercado editorial das grandes editoras e livrarias esteja em crise, nunca foi tão fácil publicar. Isso ajuda muito a um poeta que esteja começando ou mesmo a um poeta veterano que já tem um público pequeno e localizado”, salienta. O livro também será lançado em Recife, na terça.

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