quarta, 21 de outubro de 2020

Literatura
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Bob Dylan pôs em foco a discussão: letra de música é literatura?

André Luiz Maia / 14 de outubro de 2016
Foto: Divulgação
A vitória do cantor e compositor norte-americano Bob Dylan no Prêmio Nobel de Literatura de 2016 incendiou uma discussão que já está em voga há algum tempo, mas que cada dia que passa ganha força: o que é literatura e em que suportes ela pode estar ancorada?

Primeiro é preciso situar o leitor a respeito do contemplado da vez. O "bardo judeu romântico de Minnesota", como intitularia Caetano Veloso em sua "A bossa nova é foda" iniciou sua carreira artística ainda na década de 1960, tendo como ídolos o compositor Woody Guthrie e escritores da geração beat como Jack Kerouac. O nome artístico de Robert Allen Zimmerman, inclusive, vem do poeta galês Dylan Thomas, uma de suas grandes inspirações.

Seu estilo de escrita e canto é comparado aos bardos, os trovadores da era medieval, responsáveis por transmitir histórias através de poemas declamados. Em suas letras, Dylan não se furtava em tocar nas feridas sociais e em temas espinhosos da religião e da política e amor. Além da música, também lançou livros como Tarantula (1971), a coleção Writings and Drawings (1973), livros infantis que ilustram suas letras e uma autobiografia.

Mas a organização do Nobel, através da secretária permanente Sara Danius, deixa claro que é seu trabalho enquanto musicista e letrista que foram decisivos para a escolha. "Ele é um grande poeta na tradição inglesa, ele incorpora a tradição e por 54 anos ele vem se reiventando, criando novas identidades", explicou Sara, em pronunciamento oficial, divulgado na manhã de ontem.

A partir daí, as opiniões de escritores, literatos e do público em geral dividiu-se. O poeta e atual secretário de Cultura da Paraíba, Lau Siqueira, destaca sobretudo a importância política da escolha de Dylan. "Gandhi jamais ganhou o Nobel da Paz, por exemplo. Talvez, nesse tempo de conservadorismo em alta, o prêmio concedido ao grande Bob Dylan supere tantas controvérsias", afirma.

A jornalista Joselia Aguiar, responsável pela curadoria da Flip em 2017, também destaca esse caráter. "O Nobel apontou para um caminho arrojado. Creio que a sinalização é que vão buscar um posição menos conservadora no que se refere a gênero literário, e que vão estar abertos a um outro tipo de autoria", opina.

O poeta Sérgio de Castro Pinto confessa que ainda está formando sua opinião a respeito do assunto, embora seja um admirador da obra musical de Bob Dylan. "Não questiono sua grandeza, mas sim o fato de não ter certeza se a letra de uma música se sustente à parte de sua melodia. Me pergunto se não existiam romancistas, ficcionistas e poetas à altura de Dylan na concorrência este ano", comenta Sérgio. Vale lembrar que a brasileira Lygia Fagundes Telles era uma das concorrentes.

O poeta, professor e crítico literário Amador Ribeiro Neto vê o prêmio com alegria. "Há muito tempo, lutamos na academia para que considerem poesia de música popular como literatura. Acho que o suporte pouco importa, o que vale é a qualidade. A ideia de desmerecer a premiação de um poeta popular é conservadora, anacrônica", pontua.

O escritor e compositor Braulio Tavares é categórico: os versos de Dylan, por si só, são literatura, mesmo que letra de música, a rigor, só possa ser avaliada em função do canto. "Dylan é muito forte no uso de diferentes registros de linguagem, desde o inglês bíblico ao inglês publicitário, desde influência dos poetas beat até a de místicos com William Blake", diz. "Uma poesia rica de fontes literárias, e à altura de todas elas. A literatura é oral, acima de tudo. Literatura escrita veio muito depois, e se um dia desaparecer uma das duas, quem fica é a oral".

O escritor Roberto Menezes também vai pela mesma linha de Braulio. "Há aquela coisa conservadora das pessoas de que para ser escritor é preciso publicar um livro. São aqueles que confundem conteúdo com continente. Patativa do Assaré tava perdido na mão desse povo", ironiza.

Dylan soma o Nobel a uma série de outros prêmios, como o Oscar, o Pulitzer , o Globo de Ouro e, naturalmente, o Grammy. É o único ser humano a ter ganho todos eles.

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