sexta, 21 de setembro de 2018
Literatura
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As memórias de Catulo da Paixão Cearense ganham enfim edição em livro

Renato Félix / 07 de fevereiro de 2018
Foto: Reprodução
Catulo da Paixão Cearense morreu no Rio de Janeiro em 1946. Compositor, cantor, poeta e cordelista, maranhense de nascimento (apesar do sobrenome), deixou uma marca profunda na cultura do Nordeste, sendo o ponto mais visível dela a canção "Luar do Sertão". "Acho que nem existiria Gonzaga e Guimarães Rosa, se não fosse Catulo", opina Gonçalo Junior, jornalista que organizou Música & Boemia – A Autobiografia Perdida de Catulo da Paixão Cearense.

O livro recentemente lançado resgata as memórias do artista, escritas em capítulos na revista literária Vamos Ler! ao longo de 1943. Esse material estava esquecido até que foi encontrado por Gonçalo ao adquirir uma coleção da antiga revista com um colecionador.

A revista, publicada semanalmente entre 1936 e 1950, é histórica. "Ela lançou Clarice Lispector como jornalista e ficcionista, tinha HQs de Carlos Thiré, reportagens de Jorge Amado pelo mundo", conta Gonçalo Junior. A coleção adquirida ia do número 1 ao 800, sem faltar nenhum. "Folheando, foi uma descoberta atrás da outra", diz ele. "Acabei esbarrando nas memórias de Catulo".

Catulo da Paixão Cearense nasceu em São Luís, em 1863, de pai cearense e mãe maranhense. Chegou a morar no Ceará, por sete anos, mas ainda aos 17 já estava no Rio de Janeiro. Na então capital do país, final do século XIX, integrou-se à boemia da cidade. Conheceu músicos de choro. A paixão pela música e pelos versos escritos tomaram sua vida.

Aos 79 anos, começou a colaborar com a Vamos Ler! contando histórias sobre sua vida, pessoas que conheceu e, por tabela, a cena cultural e social em que viveu.

"Suas memórias são muito engraçadas, tem exagero, mas também tem verdade", explica Gonçalo. "E importante é que traz o contexto da época, a história da música brasileira dos 20 anos anteriores ao surgimento do disco". O rádio também não existia e Catulo, que nunca teve sua voz gravada num disco, se apresentava com outros músicos em saraus e serenatas que eram famosos.

Com essas apresentações, recheada de modinhas, conheceu a elite do Rio de Janeiro, incluindo presidentes da República – entre eles o paraibano Epitácio Pessoa, que tem um capítulo sobre ele no livro. "Ele teve relação com três presidentes", conta o organizador. Catulo conheceu também Ruy Barbosa e o abolicionista José do Patrocínio – sobre quem começam suas colunas.

Mas, para o organizador, o livro também pode ajudar a resgatar o status de Catulo. "Esse é um projeto pessoal para mim", revela o jornalista baiano, que vive em São Paulo há 20 anos. "Acho um crime Catulo não ser mais conhecido. As pessoas não têm noção da importância dele".

Não apenas por ser o compositor de obras como "Luar do Sertão" e "Ontem, ao luar", mas por ter projetado a literatura de cordel no Rio de Janeiro e ser considerado o primeiro a ter uma música gravada no gênero caipira: "Cabocla di Quixadá", com Baiano e Júlia Martins, em 1913.

"Di" com "i" mesmo. "Catulo foi pioneiro em passar para os versos o jeito de falar do nordestino", diz Gonçalo Junior. Daí também sua influência a monstros sagrados posteriores, como o Rei do Baião.

A pesquisa de Gonçalo Junior parte já de seu interesse pela música brasileira dos anos 1920 aos anos 1940. "Cresci ouvindo choro e samba", conta. "Tudo o que vem antes da bossa nova é do meu interesse".

Ele lançou também livros sobre a história das histórias em quadrinhos e outras áreas da cultura, mas, na área da música, ele biografou Assis Valente em Quem Samba Tem Alegria (Civilização Brasileira, 2014), Vadico, parceiro de Noel Rosa, em Pra que Mentir? (Noir, 2017), e o cantor Evaldo Braga em Eu Não Sou Lixo (Noir, 2017).

Foi na pesquisa para a biografia de Assis Valente que encontrou a Vamos Ler!. Na verdade, estava em busca de outras revistas antigas, quando fez uma compra no Mercado Livre. Foi buscar a encomenda na casa do vendedor e teve uma surpresa. "Era uma casa onde havia morado um senhor que colecionava revistas antigas", lembra. "A casa tinha mais de 100 mil revistas antigas".

O que Catulo conta em seus textos abrange um período que vai de 1880 a 1920. São 31 colunas publicadas em ordem cronológica, de 1 de fevereiro a 14 de outubro. O final foi abrupto e sem aviso. Gonçalo suspeita que o estado de saúde do artista já não o permitia continuar com os textos – ele morreu três anos depois.

Embora incompletas (Catulo escreve que precisaria de uns cinco volumes de 500 páginas cada para dar conta) são o retrato de uma época.

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