segunda, 24 de junho de 2019
Literatura
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‘A Bagaceira’ do paraibano José Américo de Almeida completa 90 anos

André Luiz Maia / 12 de dezembro de 2018
Foto: Reprodução
Duas obras icônicas da literatura brasileira completam este ano 90 anos. A Bagaceira, do paraibano José Américo de Almeida, e Macunaíma, de Mário de Andrade, contribuíram, cada um à sua maneira, para a transformação na maneira de se fazer literatura no país. As obras, lançadas em 1928, ganharam diversas edições, adaptações para outras mídias e geram inúmeras discussões sobre a riqueza de seus elementos narrativos e temáticos.

Para celebrar isto, a Fundação Casa de José Américo (FCJA) convida os professores Ângela Bezerra de Castro e Milton Marques Júnior para uma mesa redonda mediada pela também professora Sandra Raquew dos Santos. Na conversa, os conferencistas apontam elementos sobre os dois livros.

Para Milton Marques, Macunaíma encerra um ciclo, enquanto A Bagaceira inicia outro. “Macunaíma fecha um ciclo de experimentalismo modernista, de subversão das normas da linguagem, do uso do humor irônico como forma de desconstrução do colonialismo e também via de fazer denúncias. A Bagaceira traz a denúncia social, ou regionalismo social, em que reaparece um Brasil que se sabia existido, mas completamente ignorado, escancarando a exploração da força de trabalho nos engenhos nordestinos”, explica.

A presença do regional já existia em outras obras pré-modernistas, como O Sertanejo, de José de Alencar, e A Fome, de Rodolfo Teófilo, mas A Bagaceira, na visão do estudioso, apresenta aspectos que desconstroem a visão romantizada e estereotipada da região.

Ângela Bezerra de Castro lembra que, por muito tempo, as obras literárias que adotavam o Nordeste como tema sempre retrataram o sertão sob uma perspectiva muito determinista. “Até A Bagaceira surgir, as histórias mostravam um povo castigado pela seca por uma questão puramente climática. O Nordeste era ‘inviável’ porque a seca do sertão não permitia”, alerta.

Prova maior de que A Bagaceira foi seminal para esta nova guinada regionalista é uma atitude de Guimarães Rosa. ”Acho que poucas pessoas sabem dessa história. Quando ele lançou Grande Sertão: Veredas, uma cópia foi destinada a José Américo com a dedicatória: ‘obrigado por nos mostrar o caminho’. Acho que depois disso, nada mais precisou ser dito”, completa Ângela.

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