quinta, 24 de janeiro de 2019
Cultura
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José Rufino abre nova exposição no Espaço Cultural

André Luiz Maia / 01 de julho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Complexo e múltiplo são dois adjetivos que podem dar algum norte para entender José Rufino. Complexo, não por apresentar ruído em sua comunicação com o público que visita suas exposições, mas por evitar ser “encaixotado” em rótulos ou definições apressadas. Múltiplo, por estar em um processo contínuo de experimentação e desenvolvimento artístico. Tendo isso em vista, seu Limbo, a mais nova exposição do artista visual, não é motivo de estranheza.

Ao olhar pelo retrovisor, o artista faz uma espécie de colheita de fragmentos, pedaços de experimentos que nunca vieram a se tornar obras de fato ou que não tinham recebido a devida atenção pelo artista. Curioso, já que José Rufino tem formação acadêmica em arqueologia. Limbo é, portanto, um ponto de intersecção entre estas duas atividades. É um trabalho que mostra a pluralidade do conjunto de sua obra, mas não se encaixa em uma definição clássica de “exposição retrospectiva”.

“É um apanhado, um rescaldo. Cabem vários adjetivos nesta experiência. Na verdade, é um desafio de 'autocuradoria' e uma espécie de revisão. Se chama Limbo porque todas as obras são experiências do próprio ateliê desde 1970”, explica José Rufino ao Correio durante a montagem da mostra.

Rufino nasceu em 1965, entrou há pouco tempo na casa dos 50 anos e está próximo de completar 30 anos de vida artística. Como, então, há obras de 1970 na exposição, quando o artista devia ter cinco anos? Filho da artista plástica Marlene Almeida, ele foi estimulado a “brincar” com arte desde pequeno. Manchas, pinturas, artes postais, grafismos, fotocópias. Só nesse intervalo de infância e adolescência, há uma diversidade de experimentos.

A ideia de fazer essa retrospectiva diferente, que "resolve" esse quebra-cabeça elaborado durante décadas, surge há cinco anos e o exercício permanece até agora. No momento em que chegamos para a conversa, o artista ainda estava decidindo vários detalhes. “É um processo constante. Acho que até o dia da estreia, eu ainda estarei montando coisas, finalizando, decidindo juntar peças para propor uma narrativa conjunta”, confessa José Rufino.

Reconhecido internacionalmente, ele veio se dedicado nos últimos anos a fazer instalações e projetos de grandiosidade física. Um exemplo é Ulysses, uma instalação de 190m³ com o formato que lembra o corpo do herói da Odisseia e um barco, apresentada em 2012 na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro. A maquete deste projeto, por sinal, está em Limbo. No entanto, o grande esforço da exposição é mostrar a tentativa de Rufino em não se limitar.

“Eu diria que essa tentativa de delimitar é mais da crítica, do jornalismo, do que minha. Toda vez que eu vejo que estou me apegando a algum suporte, a alguma técnica ou estilo, eu vou procurando outros caminhos” pontua o artista.

Mais que uma mostra de seus talentos, Limbo carrega consigo relampejos da intimidade de José Rufino, que expõe as vísceras de seu ateliê – algo que sempre teve reticência – enquanto toca em assuntos pessoais, como a morte prematura de um irmão recém-nascido há anos e a conexão com o avô, de quem herdou o nome. Ao falar sobre as obras e suas histórias, seus olhos ficam levemente marejados, um gesto discreto, mas que evidencia o afeto envolvido. Para quem quiser conhecê-lo com mais profundidade, é uma oportunidade imperdível.

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