terça, 19 de janeiro de 2021

Cultura
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Ignácio de Loyola Brandão resgata a centenária história da família Brennand em livro

Audaci Júnior / 24 de março de 2017
Foto: Divulgação
“É quase um romance”, classifica o renomado escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão sobre o livro Grupo Cornélio Brennand – Os Primeiros 100 Anos, império empresarial pernambucano que começou a partir do açúcar, depois migrou para a cerâmica, passeando pelos ramos da porcelana, azulejos, embalagem de vidro, siderurgia, setor sucroalcooleiro, produção de cimento e pelos segmentos de energia elétrica, vidros planos e desenvolvimento imobiliário por todo o Brasil.

Parece uma leitura pedante? A resposta vem pela “peneira” na qual passam as propostas de literatura encomendada para o escritor octogenário. “Aparecem as propostas mais curiosas e mais malucas que você possa imaginar, principalmente quando eu ganhei o Prêmio Machado de Assis (no ano passado)”, comenta. “Só aceito quando é uma história interessante, ligada à história do país”.

Recentemente, quando esteve na Póvoa de Varzim, em Portugal, local onde nasceu o escritor Eça de Queirós (1845-1900), Ignácio de Loyola Brandão descobriu que o também lusitano Camilo Castelo Branco (1825-1890), clássico da língua portuguesa, também escrevia livros institucionais na sua época.

A gênese da obra aconteceu no Sobrado da Várzea do Capibaribe (PE), onde ocorreu o primeiro encontro entre Loyola Brandão e o patriarca Cornélio Coimbra de Almeida Brennand. “Foi um grande almoço tradicional. Todo um clima onde comecei a sentir a atmosfera”, conta o escritor. “Queria conhecer as pessoas para identificar os rostos. Isso é de grande importância para montar a personalidade do Cornélio Brennand”.

A conversa foi impactada pela afetividade proustiana do passado, através do suco de pitanga colhida diretamente naquelas terras. “Sabe o que me remeteu o suco de pitanga? A velha Varig, quando eu embarcava em Pernambuco e as comissárias me ofereciam aquele suco fresco e perfumado. Em Araraquara, no interior de São Paulo, todos os quintais tinham pés de pitanga, manga e jabuticaba”, puxa pela memória Brandão. “Sem falar da Camila Pitanga”, brinca, aos sorrisos.

Loyola Brandão afirma que Grupo Cornélio Brennand – Os Primeiros 100 Anos tem uma narração agradável e momentos de poesia também. O luxuoso livro recheado de imagens, com mais de 260 páginas, em capa dura e papel couché não será encontrado nas livrarias, mas foi distribuído para bibliotecas e universidades do Brasil para ser consultado pelo público em geral. “Foi um dos livros institucionais mais bonitos que já fiz. Tive orgulho e prazer em fazer”, confessa.

O trabalho de pesquisa ficou por conta de Terezinha Melo, que levantou todo o material histórico e iconográfico sobre o grupo. Foram mais de mil páginas, entre entrevistas, documentos antigos, recortes de jornais, mapas, fotografias dos Brennand, dentre outros. A produção do texto durou cerca de três anos, entre um trabalho e outro.

A publicação também conta com “um pedaço da arte brasileira” ao inserir nomes como Abelardo da Hora (1924-2014), Cícero Dias (1907-2003) e um membro do clã, o Francisco Brennand.

“Naquela época, um artista numa família tradicional é considerado um vagabundo, um boêmio... Para você ver como Ricardo (Lacerda de Almeida Brennand, pai de Cornélio e de Francisco) tinha outra cabeça, mandando inclusive o filho para estudar artes na Europa”.

Atualmente, Loyola Brandão trabalha num novo romance, que já passa das 300 páginas. “Tenho uma superstição e mania de não contar nada sobre o livro porque tenho medo de ele sair de mim”.

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