quarta, 26 de junho de 2019
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‘Mondo Sama’ é antologia emblemática do quadrinhista brasileiro

Renato Félix / 23 de janeiro de 2019
Foto: Reprodução
Vivendo em Portugal há sete anos, Eduardo Felipe, o Sama, produz seus quadrinhos de olho no Brasil e sem perder de vista os temas e referências que o fascinam. Um coquetel delas está na coletânea Mondo Sama, lançada pela Editora  Noir: as intrigas políticas, os filmes noir, as belas mulheres.

São várias histórias, de diferentes tamanhos e estilos narrativos, algumas já publicadas de forma independente em Portugal. Sama experimenta diversos traços: às vezes parece mais bruto, lembrando os catecismos de Carlos Zéfiro; em outros momentos prefere uma anatomia mais realista; e ainda há as histórias onde busca um tom mais cartunesco e francamente cômico. Há HQs de uma página, com vários quadros, e, por outro lado, "A entrevista", que leva 40 páginas e praticamente um quadro por página.

"É tipo uma 'meta HQ'. Alguns trabalhos são francas homenagens aos meus 'pais criadores'", explica ele ao CORREIO, de Portugal. "Porém, a unidade está na idiossincrasia do meu estilo de contar histórias".

Essa variedade surge muito da técnica do desenho: Sama conta que cada vez mais desenha direto, sem esboço ou correções. "Então o trabalho acaba ficando com a cara do próprio esboço. Melhor dizendo, o esboço é praticamente a minha arte final", diz. "Onde  corrijo mais é no texto e na aplicação de uma segunda cor, se for o caso".

Além disso, a ferramenta também varia. "Quando trabalho com pincel, o acabamento fica mais macio do que quando trabalho com bicos de pena. Na verdade, o desenho é o mesmo, mas basta trocar a ferramenta que o aspecto final muda completamente".

Quem seriam os "pais criadores" citados por Sama? "Crepax, Muñoz, Koike & Kojima, Grosz, Zéfiro, os Hernandez... São tantos...", enumera. "Alguns são mais influentes na visualidade e outros no aspecto narrativo. A 'pós-modernidade' é um pouco assim: vivemos numa época que compreende todas as outras ao mesmo tempo. Tudo está aí à disposição. Acho que penso imagens como um DJ mixa músicas".

O cinema noir, dos filmes de detetive, homens durões a la Humphrey Bogart e mulheres fatais a la Lauren Bacall, está sempre presente no imaginário de Sama e aparece muito no álbum. "Sim, curto muito. Tanto que recrio um Brasil noir com ares da era Vargas, mesmo para tratar de assuntos atuais", concorda. "É um cenário 'samânico', podemos assim chamar... Um lugar artístico e poético para chamar de meu".

"Aproveito os clichês estabelecidos como símbolos narrativos e os uso para contar as nossas tramas", continua. "Nas minhas histórias, há o jornalista, o herói romântico que representa o fim de uma era, o policial corrupto que reafirma a dura realidade presente que nos é imposta, os velhos e novos políticos, os homens do poder privado, os reprimidos, que às vezes defendem o opressor, e claro as  femmes fatales, que são a razão de tudo, da criação ou da destruição".

O fascínio pela figura feminina tem lugar cativo em Mondo Sama. "O poder feminino me fascina. Sempre me fascinou. Depois da morte dos meus pais, fui criado pelas minhas irmãs. Acho que tudo que faço é para elas, as mulheres". O olhar do quadrinista as contextualiza em um mundo próprio, crítico e nostálgico.

'MONDO SAMA'

De Sama (roteiros e desenhos)

Editora: Noir

160 páginas. Formato 16 x 23cm

 

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