terça, 16 de julho de 2019
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Com carisma e tino comercial, Stan Lee revolucionou quadrinhos

Renato Félix / 14 de novembro de 2018
Foto: Reprodução
Homem-Aranha, X-Men, Hulk, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Thor, Homem-Formiga, Vespa, Demolidor, Surfista Prateado, Pantera Negra, Doutor Estranho, os Vingadores. Todos são criações do roteirista e editor Stan Lee e seus parceiros desenhistas — principalmente Jack Kirby, mas também nomes como Steve Ditko e Bill Everett.

Quase todos lançados entre 1961 e 1964, uma obra que mudou os quadrinhos de super-heróis e tornou Lee um grande ícone dessa arte. Sua morte segunda, aos 95 anos, em Los Angeles, evidenciou isso mais uma vez.

Stanley Martin Lieber, nova-iorquino filho de imigrantes judeus da Romênia, queria ser romancista. Mas aos 17 anos arrumou um emprego na Timely Comics, editora que estrearia o Capitão América (de Joe Simon e Jack Kirby) em 1941. De assistente a roteirista, ele passou rapidamente a editor em 1941, aos 18 anos. Viu a editora mudar de nome para Marvel Comics e, em 1960, recebeu a incumbência de criar o gibi de um supergrupo para fazer frente ao sucesso Liga da Justiça, na DC Comics.

Assim, Lee e Kirby criaram o Quarteto Fantástico, mas o conceito das tramas mudou tudo. "Aquele momento foi um negócio de chocar", conta o jornalista e editor Sidney Gusman, do site Universo HQ. "Os heróis deixaram de ser deuses para ter problemas como nós".

Os personagens surgidos nesse período tinham tantos problemas pessoais quanto vilões para enfrentar, nem sempre se davam bem uns com os outros, falhavam e estavam inseridos nas questões políticas e sociais de seu tempo, como a luta pelos direitos civis.

"Ele enxergou que o leitor também tinha que se ver nas histórias", lembra o jornalista paraibano Audaci Junior, também do Universo HQ. "O Homem-Aranha tinha dever de casa pra fazer, a tia, ao mesmo tempo em que enfrentava criminosos". Ele também lembra que Lee apresentou como heróis e protagonistas um personagem negro (o Pantera Negro), um cego (Demolidor) e um cadeirante (o Professor X, líder dos X-Men).

Lee também foi um mestre do marketing pessoal. O paraibano Mike Deodato, desenhista exclusivo da Marvel desde 1995, pôde conferir o carisma de Lee uma vez, em 2012, numa convenção de HQ na Filadélfia. "Ele até fingiu que me conhecia", brinca Deodato. "O jeito dele era impressionante. E com todo mundo. Sempre sorrindo, vibrando.Metade da minha vida foi desenhando os personagensque ele criou. Me sinto sortudo de ter essa oportunidade".

Lee acabou recebendo muito mais atenção que seus parceiros e teve problemas em admitir a colaboração deles como co-criadores dos personagens. Seu papel como editor (com cabeçalhos iniciados com um 'Stan Lee apresenta' abrindo cada história) eclipsavam os autores. Steve Ditko, por exemplo, que criou com ele o Homem-Aranha e o Doutor Estranho, morreu este ano, sem receber nem de longe atenção semelhante.

"A primeira vez que ouvi falar em Stan Lee foi nos formatinhos da Abril (edições em tamanho menor, padrão da editora nos anos 1980), com aqueles cabeçalhos com o 'Stan Lee apresenta'", lembra Audaci Junior. "Stan Lee vendia muito bem o produto. E investiu bem cedo no cinema".

Lee levou tempo tentando convencer os estúdios a investirem em seus super-heróis. A partir de X-Men — O Filme (2000) e especialmente após Homem de Ferro (2008), o universo Marvel passou gradativamente a dominar o cinema — e suas pontas o deixaram ainda mais popular. Hoje o Marvel Studios gere uma série de filmes que compõe um universo compartilhado, como o criado por Lee e Kirby nos quadrinhos, nos anos 1960. E mais uma vez a concorrente DC teve que correr atrás.

 

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