terça, 19 de janeiro de 2021

Cultura
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‘Five Came Back’ mostra como cineastas de Hollywood se engajaram na II Guerra

Renato Félix / 04 de abril de 2017
Foto: Divulgação
"A verdade veio ao encontro dele. E ele foi ao encontro da verdade". A frase é um comentário do cineasta Paul Greengrass sobre um colega de muito tempo antes: John Ford. O motivo: em 1942, durante a II Guerra, Ford estava no arquipélago de Midway documentando a base militar americana, quando os japoneses atacaram. A história é contada na série documental Five Came Back, que o Netflix disponibilizou para assinantes na sexta-feira. Em três episódios, é contado como Ford e mais quatro diretores hollywoodianos – George Stevens, John Huston, Frank Capra e William Wyler – se alistaram para servir no conflito e produzir documentários sobre a guerra.

A série é baseada no livro Cinco Voltaram, de Mark Harris, crítico de cinema da Entertainment Weekly, que conta exatamente essa história que faz parte da biofrafia desses super cineastas, mas cujo resultado foi pouco visto desde aquela época. O seriado tem o mérito de resgatar essas imagens, como a de A Batalha de Midway (1942), o curta dirigido por Ford em meio à batalha.

Os cinco diretores engajaram-se na causa para combater a propaganda nazista, que havia produzido peças como O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl. Antes dos japoneses atacarem Peral Harbor, a base naval americana no Havaí, em 1941, o país ainda era dividido entre isolacionistas e intervencionistas quanto a se meter na guerra travada na Europa e na Ásia. O ataque fez os americanos entrarem no conflito contra o Eixo (a aliança entre Alemanha, Itália e Japão).

Assim, surgiu o esforço de guerra, a força que Hollywood passou a dar ao Departamento de Guerra, com filmes de ficção que enfocavam a guerra e demonizavam os inimigos, mas também com a disposição de alguns cineastas de fazer algo mais. Ford, que vinha de faroestes como No Tempo das Diligências (1939) e filmes humanistas como Vinhas da Ira (1940), foi o primeiro a se alistar.

Frank Capra, que vinha de filmes humanistas como Do Mundo Nada Se Leva (1938) e A Mulher Faz o Homem (1939), ficou tão impressionado e assustado com o poder de propaganda de O Triunfo da Vontade que pensou em uma série que mostrasse aos soldados (e depois ao público) os motivos de combater, elevando o moral e aumentando o apoio. A´série chamou-se Why We Fight ("Por que lutamos").

William Wyler, que dirigiu o drama de guerra Rosa de Esperança (1942) ainda antes dos EUA entrarem na guerra, acabou testemunhando o racismo dentro do próprio exército ao tentar fazer um documentário que exaltasse os soldados negros. A serviço, fez Memphis Belle (1944), sobre a 25ª e última missão do avião B-17 que batiza o documentário.

George Stevens vinha de musicais e comédias como A Mulher do Dia (1942). Foi filmar o front da África e, para chegar lá, sua rota passou até pelo Brasil. A guerra o afetou bastante e isso é visível em seu cinema posterior à guerra.

E John Huston, um aventureiro e também um rebelde, evidentemente teve problemas com o exército: filmou a luta na Itália, mas o exército considerou seu trabalho muito antiguerra.

A trajetória desses cinco grandes cineastas na II Guerra é comentada por cinco diretores de atualidade. Falando direto para a câmera, mais como comentaristas do que como quem dá um depoimento, cada um deles faça sobre um mestre do passado: Paul Greengrass sobre John Ford; Steven Spielberg (que também está entre os produtor executivo da série) sobre William Wyler; Francis Ford Coppola sobre John Huston; Guillermo del Toro sobre Frank Capra; e Lawrence Kasdan sobre George Stevens. A narração é de Meryl Streep.

Eles apontam como dos cinco mestres nenhum deles fazia documentários. "Eles eram considerados contadores de histórias, faziam ficção. O exército pensava: 'Isso aqui é de verdade, quem eles pensam que são para nos ensinar a ganhar a guerra?", conta Spielberg.

A série mostra não apenas a atuação deles durante a Segunda Guerra, mas como os horrores que testemunharam e os riscos que viveram os afetou na vida pessoal e no trabalho. Todos manifestaram os efeitos do conflito em seus trabalhos e realizaram alguns de seus melhores filmes sob este efeito indireto. O documentário do Netflix é um tributo aos cinco cineastas que filmaram a história e fizeram história.

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